[COLABORAÇÃO] Lágrimas;


Ainda chove por aqui
O tempo passa devagar
E a chuva a crepitar
Faz barulho na minha janela
E ainda estou aqui
Sozinho no meu quarto
Pensando em você

É, eu penso em você
Penso em quando éramos “nós”
Mas esse tempo se foi
Sabe
Você era tão linda acordando
Bem aqui do meu lado
Seu lugar na cama já não é mais quente
Mas seu cheiro ainda permanece no ar

Cada canto desta casa me lembra você
Não acredito que foi embora
Será que você pensa em mim?
É, eu penso em você

Às vezes acho que com outra vou te esquecer
Mas nenhuma outra tem seu cheiro
Seu jeito sem igual
E ainda estou aqui

Fechos olhos, uma lágrima cai
Toma seu posto e desce devagar por meu rosto
Mas respiro fundo, é inevitável

Ainda com os olhos fechados
Me vem aquele teu olhar
Olhando pra mim
Seu rosto próximo ao meu
Posso sentir sua respiração
Nossa, é tão real

Volto a escuridão
Mais uma lagrima cai
Mas surge um sorriso

Sim, é inevitável
Você ainda vive em mim
Sei que sempre vou te encontrar aqui
Nem que seja por um segundo
Sozinho no meu quarto

E ainda chove por aqui
O tempo passa devagar
E a chuva a crepitar
Ainda faz barulho na minha janela
E eu ainda estou aqui
Sozinho
Pensando em você
Mas nada mudou.


Escrito por: Jhônatas Santos.

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Jhônatas é um jovem rapaz intenso, tanto em seu lado sensível, quanto em sua euforia. Um tanto tímido, mas também extrovertido. Apaixonado por música, esportes e tecnologia. Busca a vida no jornalismo, se aventura em instrumentos de corda e tenta viver nas histórias de enquanto respira.




Poesia de sábado — Compartilhar;

COMPARTILHAR


Compartilhar é um gesto nobre, é uma atitude de altruísta.
Mas até os egoístas encontram motivos para compartilhar.
Pra algumas pessoas, compartilhar é dividir com alguém algo que poderia ser exclusivamente seu.
Na, zona Rural é comum as famílias compartilharem  um prato especial ou um doce com os vizinhos ou parentes.
Hoje, por meio da internet, todo mundo está compartilhando tudo,  a todo instante, porém vale apena refletir sobre o que estamos compartilhando, está fazendo bel ou mal para as pessoas?
É um prato especial ou uma comida estragada?
Estamos contribuindo para uma Sociedade mais justa, mais amável, mais segura, mais harmoniosa ou estamos transformando-a em um verdadeiro caos?
estamos promovendo a paz ou incitando a guerra?
espalhando tranquilidade ou terror?
O compartilhar é um multiplicador. Com apenas um clique estamos contagiando com o bem ou contaminando com o mal.
Somos influenciáveis, a arte imita a vida e a vida imita a arte, a informação de uma realidade pode causar resistência ou tendência em se querer reproduzir, nesse caso, chegando-se ao ponto de se tornar comum ou banalizá-la, quando se trata do bem, beleza, excelente!
E quando se trata do mal?
Portanto, se no Facebook ou fora dele, antes de CLICAR, ou de TRICOTAR, ver se vale apena CURTIR, pense o que vai COMENTAR e análise se vale apena COMPARTILHAR.



Escrito por: Rogério Santos.
24.10.2015
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Rogério Santos, entre 40 e 50 anos, mas num sou velho não, viu?! Representante comercial, radialista, escritor quando dá certo e pai da dona desse blog! Já fui poeta um tempo, mas o tempo agora é outro que me falta. Ah, tempo danado! 

#BlackPinupGirls — Priscila Braga:"Eu, os outros e o sistema";

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(Sente e tenha paciência)
Relações humanas são especialmente complexas. Somos seres centrados no nosso próprio umbigo e tudo gira em sua órbita. A partir desse pressuposto o homem instituiu na sociedade o sistema que lhe convinha, para bem lhe servir. Se olharmos um pouco para a forma como o sistema brasileiro se consolidou, percebemos que ele foi feito para ser gozado pelos que o geraram, apenas por esses. Obviamente, num país onde uma cultura domina sobre outra, esse plano pode não dar muito certo e existe uma tendência forte dos filhos desse mesmo sistema crescerem sendo ensinados que o bom, o virtuoso, o padrão é aquele que foi posto acima do que já era. E essa é a história de como caminhamos para baixo, no que diz respeito às diferenças, ou, reduzindo a miúdos, a história do Brasil.


Sou professora em formação, e o que me impulsiona à inconformidade é justamente o peso da responsabilidade de quebrar com esse paradigma colonizador na mente dos meus estudantes. Antes de tudo me identifico com o perfil de meus “filhos”, como acabo os chamando - sem querer -. Eles estudam em escola pública, moram em periferias, e vêm de uma estrutura familiar muito marcada por problemas e, mesmo que seja difícil pra eles admitir, eu consigo percebe-los como negros. Me identifico com eles porque venho de um lugar bastante parecido e quando os olho é como se contemplasse a mim mesma no espelho. Isso me move.


Meu processo se deu depois de mergulhar num universo de problematização chamado Universidade do Estado da Bahia, do qual tenho até certo orgulho de ser filha. Foi no campus 1 que pude ampliar minha visão de mundo, a partir de 2012, quando ingressei do curso de Licenciatura em Pedagogia. A medida que o mundo ia se descortinando um pedaço do meu ia caindo junto. Durante essa trajetória eu mudei demais e percebi três dimensões que permearam a minha consciência: minha visão de mim, minhas relações com os outros e meu lugar no sistema. Pra ser didática, discorrerei sobre os três contando como se deram esses processos (pra não largar o osso do ofício)


1. Eu
O primeiro grande entrave que encontrei enquanto mulher negra, estava dentro de mim mesma. Romper com o paradigma de beleza é um constante aprender que implica dor em algum grau. Não é incomum encontrar mulheres negras contando como elas se sentiram péssimas consigo mesmas um dia. Seja por conta de um traço facial ou uma textura de cabelo, por exemplo. Quase todas as negras com quem conversei mencionaram algum tipo de problema nesse sentido, com auto estima derrubada e não aceitação. Eu sofro com isso e mesmo que isso pareça só um problema primário, preciso matar um leão por dia na minha cabeça. A minha relação com meu cabelo (meu exemplo preferido) é o retrato disso. Alisei por algum tempo e odiava meu volume, tudo isso porque eu não fazia parte do grupo das lisas. Da mesma forma foi com o tom da minha pele, onde eu tentava achar sempre um tom acima do meu pra me sentir um pouco menos negra e para me dizer mulata, moreninha ou qualquer coisa que não fosse preta/negra. Vou e volto sempre pra esse lugar. O eu é algo influenciado também pelo outro, o que torna essa dimensão o meu ponto de partida e meu ponto final. Difícil discorrer sobre ela.


2. Os outros
Quando tive alguma coragem de me por pra fora, imediatamente esse foi meu próximo lugar de conflito. Os outros podem começar na nossa casa, com a negação de quem nós somos e imposição de um modelo do que parece como “princípios familiares da boa reputação”; nos nossos amigos, que acham que são muito bons por terem uma amiga negra e “olha pra mim, não sou racista”; nos nossos casos amorosos, com a questão da hiperssexualização da mulher negra e sua dificuldade em se ver num relacionamento; colegas de trabalho, que ficam impressionados com como nós conseguimos chegar ali e se foi pelo sistema “injusto” das cotas; em algumas instituições religiosas, que não estão preocupadas com a sociedade e tapam os olhos pro racismo, afinal de contas, isso não é assunto de igreja. E sim, é impressionante como uma pessoa só pode viver tudo isso, eu mesma.


Muitas de nós acabamos sendo silenciadas pelo constrangimento de não comprometer pessoas tão próximas e não raras vezes nos sentimos culpadas por estar magoadas com o equivoco alheio. Existem pesquisas sobre a afetividade da mulher negra e como esta é colocada e se coloca nessas relações. Percebo a necessidade de empoderamento dessa mulher e vejo-a ocupando um espaço de protagonismo muito forte. Ouso arriscar num perfil. Fiz uma “pesquisa” no whatsapp uma vez e notei que das mulheres negras da minha lista de contatos, 90% têm destaque no que fazem e dessas mulheres, todas são solteiras. Não quis admitir que pudesse ter relação, mas tem e científica (vide recomendações no final do texto).


Acabo me valendo desse empoderamento que a ciência dá. Li uma frase pichada em um dos muros da minha cidade (Salvador) que expressa um pouco do que acontece comigo como consequência disso: “um preto consciente é um preto descontente”. O conhecimento é uma defesa e ele me impulsiona pra cima, então se torna uma responsabilidade e me sinto bem em poder fazer algo pra mudar, além de permanecer num lugar de compromisso e respeito com minha cabeça.


3. O sistema
É dentro dessa estrutura macro que as duas dimensões acima se fazem e eu diria que essa é a raiz de tudo o que foi apresentado. Como disse no começo, a forma como se instituiu nossa maneira de pensar enquanto nação não contemplou as culturas várias presentes no Brasil. Somente uma, que é a hegemônica, retratada nas mensagens iconográficas da nossa mídia, na pouca preocupação com a formação de nossos educadores, nos serviços prestados, nas imposições que se fazem às nossas formas de nos relacionar, nos processos seletivos e em grande parte dos processos avaliativos. Esse sistema gera pessoas e pensamentos e financia o racismo, que privilegia uma parcela pequena de pessoas enquanto nega a outra o acesso a bens culturais. O sistema está em todas as relações.


Não precisamos ser iguais, seriamos apáticos. Não lutamos para sermos iguais ou parecidas com as brancas. Apenas queremos o direito de ser quem somos sem que nos considerem subalternas ou “negrinhas atrevidas”. Não queremos ser homenageadas no dia 20, queremos direito de acessar bens culturais, materiais, sociais, acadêmicos, econômicos todos os dias. Resistimos a padronização, queremos mais que isso. Queremos ser, deixem-nos ser e nos dê condições para isso sem nos punir.

Notas e recomendações
Eu queria poder escrever sobre tudo de uma vez só, mas não consigo, então recomendo algumas coisas para ler e ouvir e, sobretudo, pensar sobre determinadas questões.


Das leis:


Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico Raciais, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afrobrasileira e africana em todos os sistemas de ensino do Brasil. Todos os sistemas incluem escolas publicas e privadas, universidades públicas e privadas de todos os estados do nosso país. É tudo MESMO! (assunto pra outro texto)


Nossa amada e odiada lei de cotas.


Dos livros e artigos:


Sobre as bases do racismo no Brasil, que me refiro na primeira parte do texto e no tópico 3, pode-se encontrar mais do que eu disse no capitulo escrito por Giralda Seyferth “O Beneplácito da Desigualdade”; sobre o argumento de que não somos todos iguais, que me refiro no último parágrafo, o capítulo “Ações Afirmativas: aspectos jurídicos” do tão conhecido Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF.


Morri de alegria ao descobri (hoje mesmo na revisão do texto) que ele tinha em pdf. Será quase um presente pra quem se interessar pelo tema, que me refiro no tópico 2. Sobre a afetividade e relações da mulher negra.


Das músicas:


Cenas fortes no clipe, história real; letra forte também. O clipe que eu parei para ver no meio da escrita do texto.


Música que ouvia enquanto escrevia o texto.


Música que uso com os meus estudantes para falar sobre composição do povo brasileiro, bem didática e esclarecedora.

#BlackPinupGirls — Lysis Sevilha: "Adicione aqui um título para o racismo idiota desse povo covarde";


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Eita será que peguei pesado? Ligo não rs. Senta que lá vem a história...

Escrever esse texto não vai ser nada fácil. Passei alguns dias pensando no que eu poderia colocar no papel. Aí vocês podem me perguntar: “Como assim uma mulher negra não tem histórias de racismo pra contar?”. Nossa! Mulher negra. E se eu disser que até me assumir assim foi difícil? Lembro bem quando compreendi quem sou, e não faz muito tempo. Pois bem, caros amigos, passei a minha vida toda achando que não teria histórias de racismo pra colecionar.  Acontece que o lugar onde vivo me fez pensar que o mundo é lindo, paz e amor, “somos todos iguais, braços dados ou não”. Por um tempo pensei assim, mas hoje, mais madura, encaro o mundo de outra forma.
Eu moro em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Cheguei à conclusão de que aqui (como em muitos lugares, acredito eu) o preconceito é velado. Tentei buscar na memória algum fato explícito de discriminação que eu tenha passado ao longo dos meus 20 anos. Mas não, não achei. Só que aí, flashes de vários momentos da minha vida começaram a aparecer. Lembrei então de quando eu tinha 8 anos. Comemoração no colégio. Todos felizes. Comida. Alegria. Legal. Lá estava eu, comendo, falando com os poucos amigos que eu tinha, até que para um coleguinha ao meu lado. Ele branco do cabelo liso, sabe? Enfim, poderia ser mais um colega de classe perto de mim. Melhor seria se ficasse calado, ou que falasse de qualquer outro assunto idiota de criança. Mas não. Ele ficou ali perto de mim, até que a Tia chegou com uma bandeja de bolo de cenoura com calda de chocolate (meu favorito), eu peguei, claro. Aí ele vem e me solta a seguinte frase:
“Nossa, olha a calda desse bolo, da cor da Lysis!”
Idiotinha você, hein? Foi imbecil o que ele disse? Com certeza. Mesmo 12 anos após o ocorrido eu NUNCA me esqueci.
Acontece que isso não foi o suficiente para eu tomar vergonha na cara e perceber a maldade das pessoas. Depois disso eu passei por muitas coisas, desde piadinhas na escola sobre o meu cabelo, a olhares de pessoas que falsamente diziam gostar de mim, mas que no fundo mesmo não queriam que eu estivesse perto. Sem perceber isso foi enraizando dentro de mim e eu não me aceitava. Me achava feia, com o cabelo feio, nariz feio, cor feia, boca feia .... E assim foi por um bom tempo. Me chamar de negra? Jamais! Eu era morena, e aí de quem dissesse o contrário. Na verdade, ninguém dizia. Sempre foi assim:
 “Lysis? Ah, aquela moreninha?!”
Acabei acreditando, né?
Chegou a adolescência, e como todo Pokémon, eu fui evoluindo rs ficando mais solta, ganhando corpo, amadurecendo ... Até que chegou meus 15 anos, e com ele, meu primeiro namorado. Eu estava completamente feliz, finalmente um cara retribuiu meus sentimentos. Ele branco, loiro e com cabelo liso. Meu Deus! Tô pedindo pro pessoal falar o que não deve. Me importei? Claro que não. Mas aí começaram as “complicações”. Minha mãe já começou com as perguntas:
“Filha, a família dele sabe que ele namora uma menina ‘moreninha’?”
Eu nunca entendia por que ela dizia isso. Até que fui na festa dele de 18 anos, primeira (e única) vez que eu conhecia sua família. Então eu conheci a “sogrinha”, toda fofa e simpática comigo. Conversou com toda minha família e se mostrou bem feliz por me conhecer. Pelo menos foi isso que eu pensei. Até que ela para pra conversar com a minha mãe sobre a vida, sobre o filho mais velho que seria pai. E burramente (ou felizmente) solta a seguinte frase:
 “Ai, se Deus quiser meu neto vai ser lindo, branco do olho azul”.
Aquele comentário idiota eu tentei ignorar. Mas digo que felizmente ela disse isso porque serviu para abrir meus olhos, me mostrar como o mundo é, como as pessoas são, e por tudo que eu ainda passaria nessa vida.
Bom, essa história nunca saiu da minha mente e acho que não vai sair. Toda vez que eu conheço um cara legal, que me interesse, eu esquivo. No meu ouvido só vem à pergunta dela, e começo a pensar nos problemas que eu poderia ter se começasse aquele relacionamento. Eu sei que é errado, mas faço.
Enfim, poderia ficar horas aqui escrevendo todas as “brincadeiras”, piadas e frases vazias que ouvi durante a minha vida. Mas dessa vez eu vou deixar pra lá, o texto vai ficar muito grande. Eu só sei que tenho nojo dessas pessoas, velado ou não isso me entristece de uma forma que eu nem sei definir. Eu sei que tenho muitos aspectos relacionados a isso pra mudar na minha vida. Porém sei que estou melhorando. A opinião dessas pessoas pra mim é igual feriado dia de domingo: totalmente desnecessária.

Sou linda sim, minha cor também, meu sorriso mais ainda, minha boca grande, então, com um batom lindo é m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a. E dane-se seus comentários. Eles eu dispenso.
Ufa! Acho que foi! Estou mais leve agora! 

Leia também os demais textos do especial #BlackPinupGirls:

#BlackPinupGirls — Thiarlley Valadares: "Racismo vem de berço";


Uma das coisas mais irônicas e tristes da vida é encontrar famílias e/ou pessoas miscigenadas praticando racismo. Atitude impregnada na sociedade brasileira desde a colonização, o racismo implícito, maquiado de uma brincadeira ou até mesmo um elogio, é o que mais dói.


Este racismo está presente em frases como “só podia ser coisa de preto”, “alisa esse cabelo ruim, menina!”, “amanhã é dia de branco”, “eu não sou suas nega”, “invejinha branca”, “você é negro de alma branca” e entre outros. Aparentemente inofensivas, mas mal sabem o peso e a dor que conviver com isso, dia após dia, nos causa.


Quando uma família totalmente miscigenada e racista, por meio de um casamento, se une a outra família negra e pobre, já dá pra imaginar o que acontece. Já dá pra imaginar com o que o fruto dessa união terá que conviver. Já dá pra ter uma pequena noção do tipo de brincadeira e imposições que isso irá causar a pobre criança.


Garanto a você que ser o fruto da união citada acima, não é nada fácil. Garanto que não se aceitar negra desde os primeiros anos de vida é algo completamente doloroso. Conviver com piadas estúpidas sobre o tamanho do nariz e da boca, a cor e formato dos cabelos, a cor e profissão do pai, ofensas acerca da integridade da parte negra da família, comparações com a irmã mais velha de pele branca, não é um mar de rosas. Ser o fruto da relação acima me fez tão racista quanto me foi ensinado. Ser fruto da união citada me fez alisar o cabelo, queimar minhas raízes, negar a minha história.


Este racismo que me foi ensinado, somado ao presente na sociedade e ao machismo diário, fizeram com que eu não me aceitasse e odiasse o corpo que me foi dado pra viver. Eu nunca seria fofa e “cuidável” aos olhos de um rapaz, porque negras exalam em sua simples essência, sexualidade. Eu nunca seria delicada e bonita, porque meus traços não são finos. Eu nunca seria aceita porque meus cabelos, apesar de banhados em química, nunca seriam bonitos e lisos como nos comerciais.


Eu nunca seria bonita porque eu nunca seria branca.


Mas, graças ao gosto pela história, apoio de pessoas da família que abriram seus olhos por também amarem a história, eu percebi que era linda. Percebi que, das pequenas até as mais evidentes coisas em mim que remetiam a negritude, eram o que me faziam única. Percebi que nenhum esteriótipo imposto pela sociedade, principalmente pelos homens, faria com que eu abaixasse a cabeça.


Eu não exalo sexualidade. E posso ser uma pinup, em um misto de sensual e inocente, como qualquer branca pode ser.


Aprendi que o povo negro lutou, desde os primórdios e que luta até hoje. E eu, carregando tantos traços, não deveria negar a minha essência, mesmo em coisas simples. O cabelo voltou a ser cacheado, a boca carnuda é evidenciada. A história negra é estudada e desejada ferozmente. Aprendi que o Brasil é o que é, por conta da sua miscigenação. E que ser fruto disso deve ser orgulho e não motivo para escolher o lado branco.

Meu avô tinha ascendência alemã.
Minha avó de português.
Os avôs paternos de africanos.
Minha mãe tem cabelos lisos, nariz largo e pele escura.
Minha irmã tem boca carnuda, nariz largo, cabelos cacheados, olhos verdes e pele branca.
Eu tenho cachos, uma boca carnuda, nariz largo e uma pele escura.
Nós somos miscigenadas.
Eu sou miscigenada e nunca tive tanto orgulho disso.


Ah, e racismo que veio de berço, eu joguei fora.

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#BlackPinupGirls — Rafaela Lopes: "Pessoas brancas são mainstreams demais";

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Se você procurar “Hipsters” no Google, vão aparecer inúmeras imagens de gente considerada descolada tomando café do Starbucks. Hipster é aquela “tribo urbana” que virou tendência nos últimos anos por serem diferentes de todo mundo, os  hipsters são conhecidos por não gostarem do que é “mainstream”. Mas se você olhar no Google Imagens, você só vai ver gente branca lá sendo classificada como hipsters. Se você quiser ver um negro com as roupas “de hipster” e fazendo o que “os hipsters fazem”, vai ter que colocar “hipsters negros” no google, onde vai aparecer meia dúzia de imagens de pessoas negras lindas de morrer, e o resto vai ser só de gente branca. O mesmo acontece se você colocar Black Hipsters, apesar de o número de imagens de pessoas negras na pesquisa em inglês ser maior, ainda vai ter um mundo de gente branca lá.
Procure por Geek, Patricinha, Góticos, Roqueiros, Emos, Otakus, enfim, qualquer outra tribo urbana. Só o que você vai encontrar é gente branca, se quiser encontrar imagens de negros de qualquer uma dessas tribos, vai ter que digitar a tribo + negros. E mesmo assim a esmagadora maioria das imagens vai ser de gente branca - isso sem falar nas várias imagens de descriminação racial -. Será que negros não fazem parte de tribos? Será que negros não tem amigos, saem com sua turma, e curtem um estilo musical específico? Eu mesma vou me responder, dizendo que sim, nós fazemos parte de tribos. Durante os meus vinte anos de vida já fiz parte de diversas tribos, dos otakus, roqueiros, e geeks, e atualmente há quem me rotule de hipster/alternativa. E as pessoas que andavam/andam comigo nessas tribos, em sua maioria são pessoas negras. Afinal moro no Brasil, mais da metade da população é composta por pessoas negras.

Mas então porque quando procuramos no Google por qualquer tribo só encontramos pessoas brancas?  Por que quando ligamos a TV só encontramos pessoas brancas? E quando encontramos pessoas negras, elas são personagens secundários/a empregada/o ladrão? Porque não somos representados? A resposta é óbvia e dura: racismo. Deixamos de ser representados o tempo inteiro, não porque não existimos, mas sim, porque vivemos numa sociedade onde ser negro ou ter traços de negro significa ser feio. Nesse contexto nós crescemos e vivendo, com referências apenas do padrão eurocêntrico (branco). Quase sempre nos achando feios, e procurando parecer o mais brancos, e parecidos com as nossas referências brancas o quanto for possível. Uma das minhas “referências de estilo” são as pin ups.

 Segundo a Mundo Estranho as “pinups” eram modelos que estamparam pôsteres sensuais com uma estética muito própria nas décadas de 40 e 50. Popularizaram-se na Segunda Guerra Mundial, quando soldados norte-americanos penduravam seus pôsteres nos alojamentos (daí o nome “pin-up”, que significa “prender com tachinhas”, em inglês). As pin ups são conhecidas por terem os traços bem finos, delicados, bocas finas, cabelos lisos e franjinha. Não preciso dizer que não existiam pin ups negras, ou que na verdade, nenhuma nunca foi retratada.  Certa vez, li que o contexto de tempo em que as pin ups existiram foi um dos mais racistas da história, por isso não tinha pin up negra. E eu levei esse argumento para a vida por um bom tempo. Até me surgir a oportunidade de escrever esse texto, e ver, que não existe nem existiu tempo mais racista que outro. O mundo foi, e ainda é extremamente racista, se não fosse, as imagens que encontramos quando digitamos “hipsters” no Google, não seriam só de pessoas brancas.

Se o “tempo” em que vivemos fosse menos racista, não teriam chovido críticas quando Lupita Nyong'o foi eleita a mulher mais bonita do mundo. E comparações com outras negras “mais bonitas”, que só são consideradas “mais bonitas”, por terem traços embranquecidos. Seja o cabelo alisado, o nariz mais fino, o olho mais claro. E a Lupita não tem nenhum traço embranquecido, apesar do seu rosto extremamente perfeito, bem “delineado”, Lupita é uma negra sem traços brancos, e isso logo fez os racistas se irritarem e criticarem. Mas é fato que quando Lupita foi eleita a mulher mais bonita do mundo, as mulheres negras se sentiram representadas.

Voltando as pin ups, apesar de não ter nenhuma representação de pin up negra, eu me inspiro muito no estilo delas, quem me encontra no dia-a-dia sempre me vê com uma bandana vermelha na cabeça, uma blusa de bolinhas. Enfim, referências óbvias as mocinhas sensuais da segunda guerra, muito me encantam. Justamente por serem sensuais, apesar das pin ups serem usadas para a objetificação feminina para os homens. Sempre achei que elas representavam o início da libertação sexual feminina, apesar do “que angelical”. Mas pensando mais um pouco, vi também que nós negras, sempre fomos sinônimo de libertinagem, logo nossa libertação sexual, tem um sentido completamente diferente do das mulheres brancas, mas isso é assunto para outro texto. 
Filha da atriz Viola Davis,
a primeira mulher negra a ganhar o prêmio Emy

E, o que quero trazer a tona nesse texto, é a importância de nós negros e negras sermos representados. As pin ups não nos representa pelo contexto sexual. O povo negro praticamente criou o rock e o rei do rock é um homem branco. O rei do Pop era negro, mas se embranqueceu. Mas não seguiremos sem nos calar, se for preciso vamos nos inspirar nas pin ups pra nos sentirmos representadas, nos inspiraremos, eu vou continuar me inspirando pelo menos. Vamos fazer cosplay de Batman, e Mulher Maravilha, mesmo sendo personagens brancos. Vamos vestir nossas crianças de Viola Davis, e Lupita. Vamos mostrar que o povo negro existe e resiste, e já que me consideram hipster por aí, concluo que acho gente branca mainstream demais.






Leia também os demais textos do especial #BlackPinupGirls:

#BlackPinupGirls — Introdução;

A vida da mulher é cercada de “nãos”. E, tratando-se da mulher negra, esses nãos parecem triplicar de uma maneira absurda.


“Você não deve usar essa cor de esmalte porque você é negra”
“Você não deve usar esse cabelo cacheado”
“Você não deve usar esse batom”
“Essa cor de cabelo não combina com a sua cor de pele”
“Esse estilo não combina com você porque você é negra”


Frases como essa ou piores até, rondam a vida da mulher negra desde os seus primeiros anos. Ao que parece, há uma necessidade absurda de fazer-nos não aceitar a nós mesmas. Existe a necessidade de nos impedir de certas coisas, pelo simples fato da carregar na pele uma cor diferente. Existe a necessidade de nos embranquizar, até mesmo nas pequenas coisas.


Na cor da roupa, no alisamento do cabelo, na não-permissão de tingir o cabelo da cor escolhida, na moda adotada.


Mas ainda assim, nessa embranquização que nos é imposta, certas coisas AINDA nos são negadas, por se tratar de coisas exclusivamente brancas e que, para a maioria, não fica bem para uma negra.


E, dentro dessas coisas unicamente brancas, está o estilo PinUp. As “pinups” eram modelos que estamparam pôsteres sensuais com uma estética muito própria nas décadas de 40 e 50. Popularizaram-se na Segunda Guerra Mundial, quando soldados norte-americanos penduravam seus pôsteres nos alojamentos (daí o nome “pin-up”, que significa “prender com tachinhas”, em inglês).¹ Diante da época em que se tornaram auge, as modelos eram caracterizadas por sua pele alva e pelos traços finos, ou seja, era um ramo, ao que parece, totalmente branco.


Porém, cerca de setenta anos após o seu surgimento, o estilo PinUp parece ainda algo intocável no mundo dos brancos. Durante esta semana, em comemoração ao Dia da Consciência Negra, o blog Just Running Away trará pinup girls de maneira raramente vista. Três meninas toparam revelar seu lado modelo e, junto comigo, seremos as #BlackPinUps. Delineador, batom vermelho, boca  grande e carnuda, cabelos naturalmente cacheados e pele escura mostrarão que este estilo pode e deve ser negro sim, não devendo se restringir apenas a Dorothy Dandridge e Eartha Kitt.


(Para ter acesso aos textos, clique no nome de cada uma abaixo de sua respectiva foto)
 Thiarlley Valadares Lysis Sevilha Priscila Braga Rafaela Lopes

Divido em quatro postagens, o Especial #BlackPinUpgirls trará, além das fotos, relatos de cada uma e o racismo diário que passam nesta sociedade que tenta, inutilmente, afirmar que não é racista.

Este especial pretende, da maneira mais clara possível, mostrar que assim como qualquer outra, a mulher negra pode ser tudo aquilo que ela desejar.

Fiquem ligados!


¹ Quem foram as pinups? http://mundoestranho.abril.com.br/materia/quem-foram-as-pin-ups