CONTO | First Love — dead reckoning

12:00

Foto: We Heart It

         Correndo.
         Homens e mulheres trajando seus ternos e blazers, em uma das mais movimentadas ruas do centro empresarial de Toronto, pareciam apenas vultos escuros. Ele sabia que os olhares estavam em sua maioria voltados para si, mas não se importava. Tudo que precisava era chegar a bendita sede do jornal e falar com a irmã, precisava dizer a ela, precisava, acima de tudo, dela.
         Ele acelerou ainda mais os passos, sentindo o suor escorrer pela testa e o colarinho da camisa social apertar o pescoço, deveria tê-la folgado antes de sair do escritório, mas sequer se lembrava se tinha desligado o telefone após a notícia, como poderia ter pensado em afrouxar a gravata? Abriu a boca em busca de ar que, diante de ambas as circunstâncias, já lhes faltava desde que saiu às pressas.
         Como um relâmpago, ele passou pela portaria da sede em questão, chamando a atenção da recepcionista e deixando o segurança em alerta. A moça o encarou com os olhos arregalados e ele se apoiou por dois segundos na mesa, ofegante. Como já estivera ali antes, sabia dos procedimentos, então buscou a carteira e pegou o documento com pressa, mostrando-o a moça que parecia ter aderido o seu nervosismo.
         - Minha irmã. Eu preciso falar com a minha irmã. – Aquela recepcionista era nova, provavelmente não se lembrava dele ou nunca o vira, o que só atrasava tudo aquilo e ele não tinha mais tempo.
         - Desculpe, senhor, mas não temos ninguém aqui com o seu sobrenome. – Respondeu ela, apreensiva.
         - Hyerin Lau. – Ele ofegou mais uma vez. – Ela se casou.
         A mulher demonstrou ter compreendido e começava a digitar um número no telefone, a sala em que sua irmã trabalhava. Hyunsik notou que tudo aquilo parecia demorar demais, percebeu também que o elevador se abriria em instantes, já que um dos funcionários acabara de chamar. Notou o desleixo da recepcionista e, ao ver que alguém pedia informação ao segurança, correu em direção ao elevador que acabara de abrir, entrando e apertando o botão referente ao andar de sua irmã. Pôde ouvir a voz da recepcionista lhe chamando, mas lidaria com isso depois.
         Precisava de Hyerin.
         Precisava que ela soubesse por ele e não por algum parente ou rede social.
         Precisava ver com os próprios olhos que ela também não o deixara.
         A porta se abriu e ele se desviou de algumas pessoas, chamando a atenção dos empregados do andar, acostumados a trabalhar em completo silêncio. Antes que pudesse chegar a sala que sua irmã ficava, a viu sair sorridente ao lado de alguns colegas. O alvoroço a fez encarar o corredor e quando o olhar dela encontrou o dele, Hyerin soube que algo estava errado. Ele correu um pouco mais e parou a frente da mais velha, os olhos marejados – pela dor e pela correria, e notou que ela apertava uma pasta nas mãos com força demais. Hyunsik abriu a boca, mas nenhum som saiu, o que o fez suspirar e fechar os olhos com força, Hyerin já o olhava com horror.
         - O que houve?
         - O papai...

         Era estranha a forma como as coisas aconteciam. Na manhã daquele mesmo dia, ele tomou café ao lado dos pais. Sua mãe, sorridente, comentava o quanto o mais novo dos filhos ficava bonito trajando um terno. Seu pai, com um jornal nas mãos, dizia que na juventude, as pessoas costumavam sair assim o tempo todo. Hyunsik riu com a situação e disse imaginar terem sido anos de grande estilo, fazendo seu pai rir sem tirar os olhos do jornal. Ao terminar de comer, levantou-se da mesa, beijou a mãe no rosto, deu dois tapas no ombro do pai e saiu.
         Três horas depois, ele analisava um caso de divórcio quando o telefone tocou. A mãe costumava liga-lo durante o expediente para pedir que comprasse algumas coisas antes de voltar para casa, por isso, não estranhou o contato repentino, atendendo com animação. A voz que lhes respondeu foi falha e carregada de dor, fazendo-o ficar em alerta. Uma forte dor no peito acometeu o seu pai, seguido de grande falta de ar. Como lidava com pressão alta há seis anos, os sintomas foram logo compreendidos e sua mãe chamou uma ambulância, mas a morte era traiçoeira. E, quando o veículo estava há dois quarteirões, ele se foi.
         Hyunsik não tinha chorado. A dor que sentia no peito e nas costas indicava o cansaço físico e psicológico que se encontrava, mas as lágrimas simplesmente não escorriam pelo rosto do advogado. Foi em busca de sua irmã, pois sabia que a notícia já corria pelas redes sociais da família e não queria que ela soubesse daquele jeito. Além do mais, Hyerin era a sentimental entre eles dois, sabia que ela desabaria com a informação e precisava estar lá para confortá-la. Sempre soube que não importava a diferença de idade, deveria cuidar dela – esta foi, inclusive, uma das ordens de seu pai.

         O velório acontecera na manhã seguinte e a casa recebia parentes e amigos logo após o enterro. Sua mãe parecia absorta nas obrigações de servir os visitantes e ignorava a dor que crescia dentro de si. Hyerin passara a maior parte do dia envolvida em seus braços, mas agora recebia atenção do marido e dos filhos. Whitney, sua namorada (e cunhada de Hyerin) parecia receosa de se aproximar, principalmente quando Hyunsik estava com a mãe e a irmã, mas agora se colocara ao seu lado, em silêncio. Os dedos entrelaçados aos dele apertavam-no a mão com cuidado e o encarava vez ou outra com pesar, acariciando-o com o olhar.
         O mais novo da família Oh olhou em volta e notou que cabia a ele, agora, o papel de homem da casa. Precisava assumir a responsabilidade de cuidar das mulheres de sua vida com a mesma maestria do homem que o criara e se fora tão repentinamente. Engoliu em seco, apertou a mão de Whitney com firmeza, fazendo-a olhar para ele, e então ergueu o rosto, convicto.
         Ele assumiria aquele papel e orgulharia seu pai.
         No que dependesse dele, elas estariam juntas e seguras.

Quinze dias tinham se passado. Hyerin tentava ao máximo continuar sua vida, mas era difícil. Mesmo casada há mais de dez anos, bastava estacionar o carro na porta da casa de seus pais para ser recebida com abraços calorosos e sorrisos largos. Além do mais, tudo acontecera rápido demais. É claro que sabia da pressão alta que seu pai enfrentava, mas também sabia do cuidado fiel de sua mãe para que nada e nem ninguém contribuísse para sua piora. Mas, ela também sabia, a vida nunca seguia o rumo que se planejava e agora a mais velha dos filhos Oh precisava conviver com a falta do homem que a chamava de “minha primogênita”, apenas para ver Hyunsik colocar um bico nos lábios. Em seguida, o pai ria, puxava o mais novo pelo braço, colocava ambos em seu colo e dizia: “meus tesouros”.
Naquela tarde, Hyerin recebeu uma mensagem do irmão, solicitando que passasse lá após o trabalho e assim ela o fez. Ligou para Henry e o informou da mudança, pedindo para que ele pegasse as crianças na escola, o que este não se opôs. A fotógrafa deixou a estação de metrô e caminhou sem muita pressa em direção a casa que morou toda sua infância e adolescência, sentindo um aperto no coração com todas as lembranças que a envolviam naquele trajeto. O retorno da escola, da faculdade, as idas ao cinema, tudo fazendo-a lembrar daquele que se fora. Ela fungou e balançou a cabeça, tentando afastar tais pensamentos.
Ao chegar, não precisou bater na porta, visto que depois do ocorrido voltou a ter uma chave para que pudesse checar a mãe quando Hyunsik estivesse trabalhando. Quinze dias não era tempo suficiente para superar a morte de alguém que estivera ao seu lado nos últimos quarenta anos e Hyerin sabia que apenas o tempo curaria aquela dor ou, pelo menos, diminuiria. A casa estava silenciosa e ela subiu para os quartos assim que conferiu os cômodos de baixo e não encontrou ninguém. O quarto de sua mãe estava com a porta fechada, provavelmente estaria dormindo o que se tornara comum recentemente. Continuou caminhando pelo corredor quando notou a porta de seu antigo quarto aberta, alguns sacos de lixo e uma vassoura na porta.
- Hyunsik? – Disse ela ao chegar lá, parando na entrada. O lugar, que antes era visto como uma biblioteca bagunçada, agora tinha seus antigos móveis de infância recolocados como foram certa vez e o irmão mais novo estava em uma escada, consertando a janela. – O que você está fazendo?
- Ah, você chegou. – Ele sorriu, finalizando o trabalho e desceu as escadas, passando as mãos no tecido das calças que vestia. – Bem, agora que vocês vão morar aqui, eu precisava deixar tudo organizado. Acho que a Lizzy vai gostar de usar seus antigos móveis.
Hyerin arregalou os olhos, confusa. Ele falou daquilo com tanta naturalidade que a assustou.
- Quem vai morar aqui, Hyunsik? – Os passos para dentro do quarto foram rápidos, esquivando-se de alguns sacos de lixo.
- Não se preocupe, já está tudo resolvido. Você e Henry ficarão com o quarto de visitas, Mike e Lizzy podem dividir esse aqui. Sei que eles podem discordar no começo, mas é só questão de tempo. – Ele cruzou os braços, sereno. Sereno até demais, pensou a outra.
- Nós não vamos morar aqui, Hyunsik, que ideia absurda! – O tom de voz se alterou e ele manteve o olhar fixo e impassível voltado para ela, parecendo... o próprio pai.
- Sim, vocês vão. Já está tudo decidido. Até o fim de semana as coisas por aqui estarão prontas, você já pode avisar ao Henry.
- Eu não vou avisar nada! Pelo amor de Deus, Hyunsik, eu me casei, tenho meus filhos, não vou voltar a morar aqui. A mamãe não está em condições de voltar a morar com crianças, ela precisa de um lugar tranquilo. – Ela gesticulava, a voz carregada, mas ele permanecia impassível.
- Então você eduque seus filhos direito para ficarem calados, mas vocês quatro vão morar aqui.
- Olha o absurdo que você ‘tá falando! São crianças! Crianças são barulhentas. – Ela cruzou os braços, ofendida com a acusação. – A gente não vai vir morar aqui e ponto final.
- Sim. Vocês vão. – Com a voz firme, acreditando que tinha deixado aquilo por encerrado, ele se virou para as escadas a fim de rever seu trabalho.
- E por que diabos você precisa tanto de mim aqui? – A fala saiu mais alta, sentida. Odiava não ter sua opinião levada a sério, principalmente por ser a mais velha deles dois. – Não era você que dizia não ver a hora de se livrar de mim? – Ao ouvir, ele parou. As mãos apertaram a escada com força. – Não era você que faria desse quarto um escritório particular assim que eu me casasse? Por que a minha presença aqui se tornou tão importante agora?
- Porque eu não posso perder mais ninguém! – Ele gritou. Hyerin arregalou os olhos, assustada com a confissão e receosa da mãe ter sido acordada de seu repouso com a gritaria. – Porque eu preciso ter certeza, todos os dias, que vocês estão bem. Porque eu preciso estar aqui para evitar que aconteça de novo.
Ele não se virou. Sua voz saiu falha, as mãos ainda apertavam a escada e Hyerin quis chorar. Ela baixou o rosto e fechou os olhos, pensando em como tudo acontecera rápido demais, então se lembrou. Vasculhou em sua memória todas as vezes que esteve ao lado do irmão naqueles dois dias e percebeu o óbvio.
Hyunsik não tinha chorado.
Com passos lentos ela se aproximou dele que permanecia de costas, e então parou. As mãos tocaram-lhe os ombros, mas ele nada fez. Com cuidado, ela usou das mãos para virá-lo que, agora, não protestou. Hyunsik não a encarava e fitou sua mão ser envolvida pela dela que apesar de mais velha, possuía mãos com metade do tamanho das dele. Hyerin o levou para um dos cantos do quarto, sentando-se no chão e o puxando para fazer o mesmo. Ao se sentar, o mais novo encarou a parede a sua frente, Hyerin fez o mesmo.
- Você sabe que se estivesse em casa não poderia ter impedido, não sabe? – Perguntou ela, sem olhá-lo.
- Poderia sim. – Mentiu ele, sabendo que não. Mas precisava culpar alguém pela perda e ninguém melhor para levar a culpa, senão ele.
- Não, Hyunsik. Não poderia. A vida não funciona como a gente planeja. – Ela o ouviu suspirar e se virou para ele, guiando a mão esquerda até seu rosto e o obrigando a encará-la. Ele tinha os olhos carregados de dor e era possível notar a batalha que vivia. Hyunsik tentava ser forte, tentava assumir o papel de “homem da casa”, tentava ignorar a dor que crescia dentro de si. Ela sorriu, melancólica, e o acariciou. – Chore.
- Pra quê? – Perguntou, arisco, tentando ignorar o contato visual. Ela o forçou a olhá-la.
- Você precisa chorar, Hyunsik, não é hora de fingir ser forte. – Ele engoliu em seco e tentou se desvencilhar dela, mas Hyerin era persistente.
- Eu não preciso chorar mais. – Disse ele, mas sua voz já se tornava falha.
- Você nem mesmo chegou a chorar. – Ele desviou o olhar e ela se virou, procurando pelos olhos do outro.
- Para com isso, Hyerin, eu não... – Com as duas mãos ela segurou seu rosto e o fez encará-la. O mais novo já se preparava para rebater, mas ela o interrompeu.
- Hyunnie...
E então ele não conseguiu mais. O apelido de infância, dito por ela, naquele tom, era pedir demais. Os olhos se fecharam com força e a garganta se apertou, dando o nó que o atormentava desde que recebera a notícia. Como fazia quando ainda era menor que ela, Hyunsik apoiou o rosto no ombro da irmã e desabou em choro. Hyerin apertou os olhos tentando conter as próprias lágrimas e as mãos o envolveram num abraço apertado desajeitado.
- Noona*... – Ele sussurrou após um fungar, perdendo a frase no meio do caminho e chorando ainda mais. Hyunsik levantou a cabeça e a irmã o abraçou, encostando o rosto em seu peito e se permitindo chorar, enquanto ele apoiava o rosto no topo da cabeça dela, deixando que as lágrimas molhassem seus cabelos.
E assim, sentados no chão do antigo quarto de Hyerin, eles choraram um para o outro e consolaram um ao outro.
Afinal, uma dor compartilhada é uma dor amenizada.



dead reckoning: contagem decrescente 


Sentir-se incomodado pela morte de alguém mais do que você esperava, como se você assumisse que sempre seria parte da vista, como um farol que você poderia passar por anos, de repente fica escuro, deixando você com um marco a menos para navegar - ainda capaz de encontrar seus rumos, mas sentindo-se muito mais à deriva. Fonte: dictionaryofobscuresorrows

*Noona(lê-se nuna): Na Coreia, é comum o uso de termos específicos para se referir a pessoas mais velhas (na família, entre amigos) e/ou superiores (no ambiente de trabalho). "Noona" é usado por homens mais jovens para com mulheres mais velhas. Como a família Oh é descendente de coreanos, por isso o termo. Saiba mais aqui

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