Quando você era criança, talvez você tenha feito escolinha de futebol ou aula de música. E, mesmo já sabendo que não tinha habilidade nenhuma, você continuou com as aulas porque sabia que isso deixava seu pai feliz. Para além da falta de habilidade, você achava aquilo tudo um porre. Mas, lá estava seu pai, animado ao vê-lo com o uniforme e a chuteira ou com o violão na mão, então você respirou fundo e aguentou. Ou, quem sabe, teve aquela festa de aniversário. O tema era feio, de um desenho que você não fazia ideia de quando era e jamais assistiu, mas a sua mãe adorava. Você tentou argumentar, mostrou os seus desenhos favoritos, mas ela já tinha decidido. Então, você respirou fundo e aguentou uma festa inteira num vestido feio, quente e que coçava nas costas apenas para que sua mãe tivesse a festa que ela queria.
Na internet, conversamos aos montes sobre os homens que têm o sonho de ser pai e como mulheres são coagidas a parirem, mesmo que esse não seja o sonho delas, apenas para realizarem o sonho de alguém que não necessariamente queria um filho, mas apenas o status de uma paternidade. O lançamento do filme ‘Michael’ reascendeu as discussões sobre abuso parental e de como as crianças da família Jackson tiveram a infância roubada pelo sonho do pai.
Mas essa não é a única forma de coagir seus filhos a serem o que seus pais querem, talvez essa seja só a mais dolorosa. Quando você determina que seus filhos devem fazer cursos de graduação X ou Y para realizar o seu sonho ou quando você assume que é dever dos seus filhos te darem netos porque esse é o seu sonho, isso também te coloca no mesmo time do tenebroso Joseph Jackson. Conheço uma pessoa que sabota todos os planos da prole que não condizem com o que foi pré-determinado, com o argumento de que “eu não investi pra isso”, mas você investiu para o que, exatamente? Para que sua prole fizesse tudo aquilo que você colocou numa lista?
Nossos sonhos não devem depender de outro CPF e muito menos depender da destruição ou diminuição dos sonhos de outras pessoas. Porque, na verdade, não estamos falando de sonhos, mas sim de expectativas. Você tem a expectativa de que seu filho seja concursado ou das Forças Armadas, mas esqueceu de se perguntar uma coisa muito simples: será que é o que o seu filho QUER?
Eu venho de um contexto evangélico, o que significa que os filhos homens eram sempre “a promessa” e as filhas mulheres eram a “menina escolhida por Deus” e crescer com a expectativa não só dos seus pais, mas do contexto e, principalmente, de Deus(!) não era a coisa mais fácil do mundo. Você aprende muito cedo que qualquer que seja a sua vontade, sonho ou interesse, deve ser colocado em segundo plano, porque sua vida faz parte de um projeto maior. Não é preciso dizer que eu falhei miseravelmente em ser a menina escolhida por Deus, mas eu não me arrependo. E também não foi uma tarefa fácil, afinal, a figura divina sempre foi usada como argumento (e talvez como ameaça) todas as vezes que eu tentei me livrar dessa marca.
Mas eu me livrei. Porque eu não tenho responsabilidade com os sonhos de ninguém, principalmente se esses sonhos terceirizados envolvem colocar os meus próprios sonhos no bolso. Eu sinto muitíssimo, mas eu passo. Porque, assim como as mães que pariram para realizar o sonho de homens que queriam ser pais, a frustração de realizar o SEU sonho em detrimento do meu será uma frustração só MINHA. Então, antes você frustrado porque eu não supri a sua expectativa do que eu frustada de ter transformado a minha vida em algo que eu não queria.
De novo, não é fácil. Conviver com a frustração alheia sobre si é horrível, principalmente se você passou a vida toda tentando pertencer e existir num ambiente que valoriza muito mais a sua renúncia para caber num espaço do que a sua existência por completo. Mas, sendo bem sincera, dói e passa. Assim como quase tudo na vida.
Frustre as expectativas dos outros. Só faça o concurso se você quiser, não entre nas Forças Armadas se não for a sua intenção e, principalmente(!), não coloque crianças no mundo se você não estiver certa sobre isso. E sobre esse último, as pessoas vão tentar muito ocupar o seu útero; vão falar sobre o maior amor do mundo, sobre quem vai cuidar de você na sua velhice (motivo no mínimo questionável), vão dizer que você vai se arrepender, que o tempo vai passar, que seu relacionamento não vai durar sem uma criança, enfim, os argumentos são infinitos. Mas se você não quer, não há o que ser discutido. O não é uma resposta completa.
E no fim, antes todos ao seu redor frustrados porque você escolheu a si mesma, do que você ouvindo o choro de uma criança nos seus braços, se perguntando como seria a sua vida se tivesse se priorizado.





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