Fui uma criança muito dengosa, que buscava atenção e afeto com uma voz melosa e fazendo manha. Sendo assim, nunca foi fácil pra mim entender outras formas de demonstrar amor que não fossem o dengo, o carinho, o colo e o abraço.
Minha vó materna, dona Dolores, sempre foi costureira. Uma das minhas memórias mais fortes era passar as tardes em seu ateliê, sentada na mesa que ela cortava os tecidos, ouvindo o barulho da pequena TV de tubo de 14 polegadas ligada em alguma novela do SBT se misturar ao barulho da máquina. Numa pausa e outra, vovó me contava histórias.
Sendo neta de uma das costureiras mais famosas da cidade de Tobias Barreto, eu sempre tive boas roupas. Peças exclusivas, feitas sob medida. Só fui saber o real valor de roupas no início da vida adulta, porque até então elas eram mágicas: saíam da máquina da minha vó direto pro meu guarda-roupa. Lembro de, no meu aniversário de seis anos, vovó ter me puxado de canto para ajeitar o vestido que, segundo ela, minha mãe tinha colocado errado. Longo, o vestido era rodado, salmon, com pedras e lantejoulas colocadas à mão por ela mesma. De um jeito meio ríspido, vovó ajeitou as alças, me deu um cheiro no cabelo e me mandou voltar pra festa. E eu voltei, desfilando, como uma princesa, porque sempre me senti uma princesa usando os meus vestidos rodados.

Vovó Dolores me entregando o diploma na formatura do ABC, em 2000. O meu vestido foi feito por ela.
Cresci acreditando que vovó não gostava de mim porque, no meu entendimento, afeto só poderia ser demonstrado com dengo e vovó não era assim, nunca foi. A fama dela, inclusive, é de ser bastante sincera, sem papas na língua. Só depois de adulta é que fui entender que dona Dolores demonstrou e demonstra seu afeto através da linha e da agulha. Se me lembro bem — e eu me lembro — tive roupas novas nas festas de agosto (mês da padroeira de Tobias Barreto para aqueles que não conhecem) e nos natais, aniversários e todas as outras datas importantes.
Vovó Dolores — que, após a morte precoce do marido, sustentou seis filhos entre adultos, adolescentes e crianças através do trabalho com a máquina de costura — hoje descansa a aposentadoria. Mas ela costura de vez em quando; sejam roupas esporádicas, sejam lençóis e panos de prato muito bem decorados — lembro de ter ganhado um pano de prato, há muito tempo, ainda na faculdade, e disse “vou guardar pra quando eu for morar sozinha ou casar” e vovó prontamente respondeu “deixe de ser besta que daqui pra lá eu faço mais” e ela fez (e, de fato, eu só inaugurei o pano quando fui morar sozinha).
Essa semana, ao usar a peça de roupa mais recente que ela fez pra mim, mencionei o uso do macaquinho, mandando uma mensagem. Falei “todo mundo aqui elogiou” e ela respondeu “claro, né?” e eu ri.
O que eu sempre entendi como uma prepotência dela, que a gente sempre brincou dizendo que ela se acha, hoje entendendo diferente: vovó sabe que costura como ninguém porque ela o faz com amor; é através das linhas, dos tecidos cortados sem molde, da quantidade de pano que ela sabe quanto precisa só de olhar pra mim, na casa de botão que ela faz a mão, no cuidado e na atenção que ela demonstra seu afeto.
Vovó e eu temos 50 anos certinhos de diferença. E nos meus 30 de vida eu sempre tive peças dela para vestir. Em algum momento, essas blusas, calças, saias, vestidos, macacões, lençóis e panos de prato serão tudo o que eu terei dela — além das lembranças, é claro. Pensar nisso me deixa reflexiva; não pelas roupas em si, mas pelo que elas representam e representaram. Vovó e a máquina são, para além de tudo, o pilar e o ponto de partida das gerações seguintes. Se não fosse a máquina, talvez não existisse meu diploma.
Por isso, ao usar meu macaquinho marrom (que ela fez lá em Tobias, eu estando aqui em Aracaju, sem ter como provar e que ficou perfeito), me sinto uma princesa de novo. Porque, assim como o vestido salmon da minha festa de seis anos, que ela ajeitou com um carinho meio áspero, esse macaquinho é o jeito dela de se fazer presente em minha vida. De me lembrar que o caminho começou pelas linhas de sua máquina.
De que, nesse mundo grande demais, nem todo mundo tem a alegria de ter uma dona Dolores. Que sorte grande a minha. Feliz aniversário, vó!





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