Resenha #37 — 'O Perigo de uma História Única'; Chimamanda Ngozi Adichie

o perigo de uma história única chimamanda ngozi adichie
Título: O Perigo de uma História Única (The Danger of the Single Story) 
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie 
Tradução: Júlia Romeu 
Páginas: 61 páginas
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: O que sabemos sobre outras pessoas? Como criamos a imagem que temos de cada povo? Nosso conhecimento é construído pelas histórias que escutamos, e quanto maior for o número de narrativas diversas, mais completa será nossa compreensão sobre determinado assunto. É propondo essa ideia, de diversificarmos as fontes do conhecimento e sermos cautelosos ao ouvir somente uma versão da história, que Chimamanda Ngozi Adichie constrói a palestra que foi adaptada para livro. O perigo de uma história única é uma versão da primeira fala feita por Chimamanda no programa TED Talk, em 2009. Dez anos depois, o vídeo é um dos mais acessados da plataforma, com cerca de 18 milhões de visualizações. Responsável por encantar o mundo com suas narrativas ficcionais, Chimamanda também se mostra uma excelente pensadora do mundo contemporâneo, construindo pontes para um entendimento mais profundo entre culturas. 

Se você acompanha o blog lá no instagram, já sabe que no último sábado, eu dei uma leve surtada com o pacote recebido do Grupo Companhia das Letras. Foram três livros incríveis, um deles sendo de uma das minhas autoras contemporâneas preferidas que já apareceu aqui no blog, Chimamanda Ngozi Adichie. O livro é bem curtinho, mas muito impactante. O exemplar de bolso conta com 61 páginas e é baseado em uma palestra dada por Chimamanda em2009, no TEDtalk. Após dez anos, o vídeo desse evento possui mais de 18 milhões de visualizações – tamanha a sua relevância em nos fazer repensar ações e visões.

Com exemplos próprios, a autora nos leva a refletir naquilo que não nos aprofundamos e, a partir disso, acreditamos em histórias rasas e, muitas vezes, inverídicas. Os estereótipos seguem nos perseguindo, seja pela cor, pelo gênero, pela orientação sexual, pelo lugar onde se vive; não se aprofundar em conhecimentos básicos em sociedade, isto é, acerca do outro, da vivência do outro e daquilo que nos difere é dar vasão aos estereótipos e continuar a perpetuá-lo.


Como nordestina, uma coisa que ainda me incomoda é a visão que muitas pessoas do sudeste e sul – ainda – têm de nós. Percebo, muitas vezes, que algumas pessoas se chocam quando digo que me graduei numa universidade de elite, a segunda melhor do nordeste, por exemplo. É como se, por se tratar do nordeste, vivêssemos sem água encanada e energia instalada, em ruas com estrada de barro, com duas ou três crianças desnutridas correndo com poucas roupas. Infelizmente, essa é uma realidade que ainda existe e a região foi denominada pela ONU como um dos territórios esquecidos e invisíveis, mas não é a história única da nossa região. É importante se atentar a isso, fazer-se aberto a conhecer e compreender novas realidades daquilo que você já conhece, mas conhece apenas um pedaço da história.

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Como pessoa negra, a história única também é algo que me incomoda – e muito! Somos plurais e isso precisa respeitado. A ideia de negros como serviçais perdura em nosso país como herança da escravidão, mas há 131 anos que o modelo escravocrata foi abolido do Brasil. Gritamos “somos todos iguais”, mas é preciso que se deixe a história única de lado, os estereótipos, para que nos vejam como pessoas diferentes, com histórias diferentes, com a pluralidade que somos. Refletir e analisar as próprias ações é o primeiro passo, compreender a sua visão única – e escravista – que nos enxerga sempre como a empregada, o motorista, a zeladora, a atendente, a enfermeira. Para que assim, compreendendo a pluralidade que somos, independente da cor da pele, possamos, de fato, ver-nos como iguais.


Eu gostei como Chimamanda apresenta um breve relato sobre o continente africano e como, erroneamente, é visto como país, e lembrando apenas como muito pobre, repleto de pessoas e crianças desnutridas, o maior índice de AIDS do mundo. Ela completa: “É claro que a África é um continente repleto de catástrofes. Existem algumas enormes, como os estupros aterradores no Congo, e outras deprimentes, como o fato de que 5 mil pessoas se candidatam a uma vaga de emprego na Nigéria. Mas existem outras histórias que não são sobre catástrofes, e é muito importante, igualmente, falar sobre elas”, p. 27.

Que possamos esquecer a história única por alguns instantes. Numa discussão, sempre frisamos que há os dois (ou até mais) lados da história, não é mesmo? Que possamos ser assim na vida, em sociedade. Que possamos compreender que sempre existe outras histórias, além dos estereótipos, além do senso comum, e assim, quem sabe, possamos ao menos melhorar a harmonia entre nós.

E aí, gostou? Já leu, tem vontade de ler? Conta aí o que achou. :)

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