Sobre escolhas, projeções e queijo

Desde que eu era adolescente que um dos meus objetivos de vida era sair do interior. Desde a escolha do curso até a aceitação de alguns trabalhos, tudo foi feito e pensado para o dia que eu finalmente saísse daquela cidade pequena que parecia não ter perspectiva pra mim.

Assim, sendo esse o meu objetivo, soava absurda a ideia de alguém querer ficar naquele lugar. Como assim você, alguém que pode ter a chance de ir embora, escolhe ficar aqui? Essa era uma frase que ecoava na minha cabeça sempre que ouvia os planos de outras pessoas que tinham possibilidades melhores que eu, principalmente financeiras e de privilégios, mas que escolhiam ficar onde eu queria ir embora.

Já fiz as pazes com a minha terra natal, mas isso é assunto para outra hora. Hoje, já adulta, percebo que tudo o que eu fazia ao questionar as escolhas dos outros era projetar o que eu queria pra mim em outras pessoas. Na minha lista de prós e contras, lá não era lugar pra mim, mas isso dizia única e exclusivamente a mim, Thiarlley Valadares. E, ao ver pessoas acomodadas e até mesmo felizes em um lugar que eu não era, isso me frustrava.

Já percebeu o quanto nós fazemos isso ao longo da vida? Principalmente na internet, é comum discussões extensas sobre as escolhas de pessoas que poderiam ser evitadas se cada um não projetasse a si no outro. E é engraçado, se eu puder usar esse termo, porque enquanto detestamos que digam ou projetem na nossa vivência, volta e meia estamos projetando na vida dos outros. O que eu aprendi ao perceber que projetava as minhas escolhas na vida dos outros foi a respeitar aquilo que as pessoas escolhem pra si. Por mais que eu não concorde, por mais que eu jamais escolheria aquilo pra mim, não importa: não é sobre mim e não tenho esse poder sobre o outro.

Se eu puder usar mais um exemplo pessoal, não gosto de queijo. Mas quando eu digo em voz alta, as pessoas se ofendem, dizem que devo ser infeliz ou que minhas refeições são sem graça. Mesmo que eu não tenha nada contra queijo no prato dos outros, na verdade, aqui em casa compramos queijo já que Felipe gosta. Eu costumo preparar pratos com queijo pra ele e sem queijo pra mim e seguimos em paz. Mas o fato de EU não querer queijo no MEU prato incomoda as pessoas. Como que pode?


Quando colocamos na perspectiva do queijo, não parece idiota? Por que a forma como o outro decide viver ou se alimentar nos incomoda tanto? Por que a decisão de alguém em viver a própria vida faz com que você pré-determine se a pessoa em questão será feliz ou nãoCada um vive da forma que acredita ser melhor pra si e nós, enquanto espectadores…. bem, não nos cabe nada. Porque a vida não é nossa e as consequências das escolhas também não serão vividas por nós.

No fim, é cada um no seu quadrado e como diz vovó Dolores, “quem fez seus angu que coma”, ou seja, cada um que dê conta de suas próprias escolhas e suas respectivas vidas.

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