É que eu sou do interior

Quando era adolescente, talvez por influência de amizades problemáticas, eu tinha vergonha de ser do interior. Como tudo o que eu conhecia eram as limitações de Tobias Barreto e região, sempre quando fora desses lugares ou com pessoas que eu entendia serem melhores por serem de fora, eu me podava.

Quando em Aracaju, não usava a escada rolante por vergonha de cair. Na minha primeira viagem a São Paulo, quase não registrei lembranças, nem mesmo visitei lugares turísticos, porque achava que era "coisa de pobre" (por sorte, estive na cidade de novo outras vezes e vivenciei direito). Vi o mar pela primeira vez aos 9 anos, na praia do Saco, em Estância. Fui ao cinema só aos 14, quando vim a Aracaju para o vestibular seriado, em 2009. Na minha cabeça, quanto mais agisse de forma desinteressada, mais eu iria me misturar e não dar muito na cara que não era como as outras pessoas que eu conhecia: tinham vivenciado tanto que já tinham banalizado a coisa toda.

Mas quando penso em interior, tenho algumas histórias pra contar.

Estátua de Tobias Barreto de Menezes em Tobias Barreto/SE 

Em 2015, já estava no ônibus dos estudantes que fazia a rota Tobias–Aracaju quando cancelaram minha aula. Desci no primeiro povoado logo depois de Tobias e liguei pra casa, pedindo para irem me buscar. Um senhor se aproximou de mim.

— Que foi, minha filha? Num vai ter aula, não? — eu respondi que não. — Apois espere aqui que o ônibus pra voltar passa já.
— Já estão vindo me buscar.
— Então melhor ainda, venha pra cá, num fique na beira da estrada, não.

Segui o senhor de cabelos grisalhos, a esposa dele estava no alpendre e me ofereceu uma cadeira de plástico, me sentei. O casal me ofereceu pipoca e café, e eu aceitei, uma criança trouxe a pipoca, a senhora o café. "Direto vocês ficam sem aula, né, os menino descem aqui direto, mas é bom que tá perto" disse o senhor e eu concordei. Não demorou para que a carona chegasse, eu agradeci a hospitalidade, o casal acenou com um sorriso. Não cheguei a perguntar os nomes e me arrependo disso.

2021, eu estava em Graccho Cardoso a trabalho. O pagamento via Pix estava no seu início. Fui até um Açaí comprar água: eles recebiam pix, mas não vendiam água. Ao lado, um mercadinho na garagem de casa, a família toda na porta. Eles vendiam água, mas não recebiam pix e eu estava sem cédulas. Agradeci e voltei para a porta da igreja (sim, a pauta era uma missa). Não demorou muito para que uma mãozinha tocasse meu braço; um menino de no máximo dez anos me estendeu uma garrafinha de água.

— Minha mãe mandou te dar, fia. — Olhei para o mercadinho, a moça fez um joinha e balançou a mão, como quem disse "não se preocupe". O menino saiu correndo antes que eu pudesse agradecer.

Como eu pude ter vergonha de trazer comigo a inocência, o acolhimento e o afeto que só o interior proporciona? Não sei dizer quando virei a chave, talvez tenha sido exatamente quando saí para morar em Aracaju, mas há beleza na simplicidade interiorana a quem sou grata por, através desse olhar, poder enxergar a vida de outra forma. Como não normalizar receber frutas de presente, ter a cidade movimentada no mês da padroeira, o mês que a cidade recebe parque de diversões e que todo mundo tem roupa nova, independente de ser católico ou não.

Uma vez trouxe caldo de frango que minha mãe fez e dividi com a minha chefe da época (hoje uma grande amiga). Quando comentei com mainha, virou regra: todas as vezes que fui a Tobias, ela dizia "vá comprar frango pra levar caldo pra Luana". E eu comprava. Certa vez, quando trabalhava como produtora de jornalismo numa emissora de rádio em Tobias ainda, me chamaram na recepção, uma mulher queria me conhecer. Eu estranhei, já que eu não apresentava nada, só ficava nos bastidores, no máximo diziam meu nome pela produção no início e no final do programa. Quando me viu, a mulher me perguntou se eu era a Carla do jornal (é o meu primeiro nome) e me abraçou quando falei que sim. 

 — É que eu também sou Carla e nunca conheci ninguém assim do rádio com meu nome — disse, ao pedir para tirarmos uma foto, eu disse que sim, encantada com aquele momento.

Complexo Feira da Coruja em Tobias Barreto/SE

O bom de envelhecer e amadurecer é perceber que certos medos, receios e preocupações eram ridículos. É entender que cada mínimo detalhe da nossa história importa e que não há como descobrir para onde vai se não souber de onde veio. Quando pensei nesse texto, o título seria "me perdoe, é que eu sou do interior", mas eu não vou pedir desculpas não, cada uma! Se eu tiver outras cem vidas, que em todas elas possa vir nordestina, sergipana e interiorana. Já pensou viver num lugar onde não vende bolo de leite na padaria mais próxima, que o cheiro de arroz doce com canela não invada o ambiente e que Limão com Mel não toque em toda altura na casa da vizinha? Que Deus me defenda!

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