Nem lá, nem cá, mas exatamente aqui

Eu adoro a expressão “quem vive de passado é museu”, como se a gente não estivesse, o tempo todo, revisitando o passado. Seja pensando no argumento que poderia ter sido melhor naquela discussão, se ressentindo com afastamento de alguém ou lamentando a ausência de alguém que já partiu (seja partir da nossa vida ou desta vida). Quem vive de passado é museu, mas estamos, constantemente, pensando no que era.

Outra que eu acho incrível é “o futuro a Deus pertence”, como se a gente não estivesse, o tempo todo, se antecipando para que nada do futuro dê errado. Eu sou fã de fazer isso: perder horas de sono analisando possibilidades e soluções para que nada dê errado e organizando uma ou mais alternativas caso dê errado. Conversas imaginárias que nunca acontecem e crises de ansiedade por situações hipotéticas que nunca chegam a se tornar realidade de fato.

Mas se perdemos metade do tempo lamentando o que era e a outra metade gastamos preocupados com o que há de vir, que horas a gente se dedica ao que é?

Fonte: Pinterest

Porque, bem, hoje é o futuro de ontem e o passado de amanhã. Então pra que a engrenagem funcione a gente precisa organizar melhor as coisas. Se estamos aqui, no agora, preocupados com o que acontecerá amanhã e, então, quando o amanhã chega, estaremos lamentando os erros cometidos no hoje/ontem, a conta nunca fecha, o ciclo nunca será rompido.

Citando a nossa diva Fátima de Entre Tapas e Beijos, “o tempo está passando, Sueli”. E se nunca estamos satisfeitos com o agora, mas sempre frustrados com o que foi e ansiosos com o que virá, que horas que nós agimos? Em uma das crônicas passadas, trouxe a fala de Luciana Righi Dreon em um vídeo no instagram, “o que você tá reclamando e não tá mudando, você tá escolhendo”. Lamentar o que foi e se preocupar o que virá é, sem dúvidas, uma reclamação constante sem uma ação concreta.

E é horrível colocar isso em palavras porque, olha só se não sou eu a maluca que se antevê em inúmeros cenários, dos mais tranquilos ou mais destrutivos, na tentativa de que nada dê errado? Mas a vida não é um morango, já aprendemos isso a essa altura do campeonato (ou, eu pelo menos, espero que você já tenha aprendido) e imprevistos acontecem, as pessoas nos deixam, a gente se arrepende, o futuro não é nada como a gente colocou no papel. 

Então, depois de respirar fundo e segurar um pouco das maluquices que me habitam, eu me lembro que hoje é o futuro de ontem e o passado de amanhã. Não adianta surtar se eu não tomo uma atitude efetiva sobre a lamentação ou a frustração. Porque se eu estou focada o tempo todo em me lamentar, amanhã eu estarei lamentando porque hoje eu perdi tempo lamentando por ontem. Ou, então, amanhã estarei em surto prevendo uma rotina que funcione para o dia seguinte como eu perdi o dia de hoje em surto prevendo uma rotina que funcionasse amanhã. O ciclo não acaba.

E essa maluquice só termina quando você decide que não vai ficar nem lá, nem cá, mas exatamente aqui. Aqui, no hoje, nesse momento, onde o passado não se altera e o futuro não se prevê. O que você aprendeu com o ONTEM para que as escolhas feitas não sejam uma repetição de lamentações? O que você consegue organizar para AMANHÃ, mesmo ciente de que pode não seguir o que você planejou? Como você aprecia o HOJE?

Nem lá, nem cá, mas exatamente aqui. Revisite seu passado sem a culpa de ter errado e sem apego de quem por lá ficou. Tente esboçar o seu futuro sem a sentença de que tudo precisa seguir a sua planilha. Se vai segurar um peso nos ombros que seja o aparelho da academia para fazer agachamento e te deixar com a bunda enorme.

Nem lá, nem cá, mas exatamente aqui. Se desamarre ao que era e não se prenda ao que há de vir. Pise seus pés no que é.

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