Os anos 2000 nos fizeram acreditar que isso era uma coisa boa

 “O trabalho edifica o homem”, você já deve ter visto ou ouvido em algum lugar. Alguém deve ter dito inclusive que estava na Bíblia, mas não me dei ao trabalho de confirmar. Uma frase semelhante, aliás, foi usada com grandíssimos tons de crueldade pela Alemanha nazista: Arbeit macht frei (“o trabalho liberta” ou “o trabalho faz livre”) estampava a entrada de campos de concentração na justificativa de que aquele lugar, de alguma forma, traria dignidade àquelas pessoas.

Se você cresceu nos anos 2000, provavelmente assistiu filmes como “O Diabo Veste Prada” (2006) que voltou a ser assunto após o lançamento da sequência, 20 anos depois do primeiro filme. E se você viu esse e tantos outros filmes com a temática de “vida adulta” dos anos 2000, provavelmente a ideia de ter um trabalho sério, talvez em um escritório, e que demandaria quase que 100% do seu tempo parecia uma ideia incrível. A gente não via a hora de ser adulto e tomar decisões por conta própria e um adulto focado e compromissado com um trabalho digno era o modelo ideal.

O Diabo veste Prada (2006)

Em 2017, por um ano, eu tive um dos piores horários de trabalho possível (e não ironicamente era o meu primeiro emprego): das 6h às 8h, das 10h30 às 14h e três dias da semana o adicional de 16h30 às 19h. Eu recebia abaixo do piso de jornalista e ainda lidava com profissionais homens (e mais velhos que eu) que não estavam dispostos a levar a sério uma jovem de 22 anos recém-formada. Foi uma época horrível da minha vida: eu mal tinha tempo para outras coisas e o horário quebrado me fazia dormir em qualquer momento livre que eu tivesse.

“Parecia legal quando éramos crianças, mas agora só me parece triste” comentou alguém em uma publicação do Instagram sobre o já mencionado filme O Diabo Veste Prada. E, sem querer ser eu a 30+ a te dizer isso: essa pessoa está corretíssima. Hoje eu tenho plena noção de que Emilly e Andy não eram workaholic, mas sim grandíssimas exploradas pelo sistema capitalista, porque olha só se não fui eu, também, explorada por esse sistema por diversas vezes, acreditando que estava no auge da minha vida, sempre atarefada, sempre corrida, sempre caótica.

"Eu amo o meu trabalho". O Diabo veste Prada (2006)

E nós, os não mais jovens dos anos 2010 ainda vivemos os resquícios de uma infância e pré-adolescência repleta desses filmes. Nós ainda acreditamos que um dia bom é um dia corrido. Nós não sabemos descansar, não sabemos ter um hobby sem que sejamos totalmente incríveis nele, não sabemos quem somos sem um crachá ou uma espátula na mão (se você ainda não leu a relação que esta escritora já fez com Bob Esponja e vida adulta, clique aqui).

E, sem saber como ter uma vida sem que o trabalho seja a primeira linha da nossa biografia, nós caminhamos para uma vida que precisa ser sempre caótica, desajeitada, desorganizada, dolorida. Não sabemos fazer algo apenas por fazer: precisa ter um propósito, preencher o LinkedIn ou o Lattes, trazer dinheiro.  Porque nós aprendemos que era assim.

E aí, quando nos deparamos com uma realidade longe da planilha do Excel, aquela onde os planos precisam, olha só, de planejamento, que as coisas levam tempo para serem aperfeiçoadas, aquela realidade onde um passo vem após o outro e onde a massa de pão precisa de tempo para fermentar e crescer, nós colapsamos. Não sabemos lidar com algo que precisa ser feito com calma, que precisa ser feito um dia após o outro.

E, eu tenho aprendido muito nos últimos tempos com alguns não tão leves esporros da espiritualidade, não há nenhum culpado a não ser nós mesmos (talvez, quem sabe, os supracitados filmes dos anos 2000). Não adianta culpar o outro, o prazo próximo, a falta de tempo, o clima, o barulho do vizinho ou o lugar que você está. Se quisermos uma vida que não seja baseada no olhar frenético no relógio somado a um energético do lado, é preciso trazer a responsabilidade pra si e buscar o que está faltando.

Eu não sei te dizer o que falta na sua vida. Na minha, faltava respirar com calma e fechar os olhos. Deixar os sonhos dos outros para trás e buscar os meus. Viver a vida que eu queria pra mim. E, pra isso, foi preciso parar de buscar desculpas em todos os cantos e arcar com as consequências das minhas escolhas. Parar de ter aquilo que os anos 2000 me ensinaram como verdade absoluta e entender que de nada adianta um contracheque alto se no fim do dia tudo parece sem sentido. Pra mim, foi preciso me responsabilizar pela vida que eu levava e não me fazia feliz e ir, enfim, atrás daquilo que eu queria, mesmo que sem um contracheque. E, tal escolha sendo feita, foi preciso sustentar as minhas decisões.

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