Era fim de tarde de um domingo qualquer e ela estava cansada. Cansada de ter que aturar os "dramas" de seu cabelo, que insistia em não ficar da maneira certa, desfazendo os cachos com extrema rapidez. Decidiu então que faria uma chapinha. Passaria o quente nas madeixas e as deixaria lisas ao menos por uma semana, afinal, teria afazeres demais para ainda se preocupar com cabelos desobedientes. 

O instrumento, que antes usava duas vezes por semana e agora não lembrava a última vez que usara, foi pego e ativado. Cerca de quarenta minutos foram gastos para deixar toda aquela cabeleira lisa, porém, ao olhar no espelho e dar de cara com o trabalho finalizado, ela não se reconheceu. 

"Essa não sou eu".
"Esse cabelo não é meu". 

Os fios, lisos e brilhosos, deslizavam pelos ombros e caíam até abaixo dos seios. A franja, longa e com uma queda perfeita, que há dois anos era seu maior desejo, agora ela não via graça. Sem seus cachos ela não era ninguém. O que soava bem irônico, se comparada a frase que ela usava alguns anos atrás. 

Sem seus cachos ela perdia sua identidade,
negava sua história,
escondia seu verdadeiro eu.

Mais do que pressa, ela saiu dali, o chuveiro fora seu destino. Bastou que a água tocasse os fios para que o encaracolado retornasse e no rosto moreno, um sorriso surgisse. Com uma toalha nas mãos, ela enxugava os cabelos que cada vez mais se faziam cacheados.


"Agora sim".