Morre um escritor;

Era uma vez um jovem escritor. Astuto, o rapaz escrevia desde cedo, pequenos versos, poesias, crônicas e contos. Certa idade, chegou até a se envergonhar dos primeiros textos, mas ainda assim orgulhava-se bastante da evolução que sua escrita havia passado.
Escrevia em cadernos, bloquinhos, guardanapos, quadros brancos e negros, em qualquer lugar. E se orgulhava disso. Sua vida era única e exclusivamente escrever. As pessoas o elogiavam, diziam que ele iria longe, traçavam o futuro do garoto como “um grande escritor” e ele se sentia extremamente orgulhoso de si mesmo, acreditando em todas aquelas faladeiras…. pobre criaturinha.
Um belo dia, ele decidiu que divulgaria seus escritos. Foram dias de planejamento, afinal, ele seria um grande escritor e grandes escritores não fazem as coisas de qualquer jeito. Organizou seus melhores trabalhos, escreveu novas histórias, passou dias e noites relendo, corrigindo, enxugando, para que tudo ficasse perfeito para sua divulgação.
E ficou.
A internet parecia pequena diante dos planos que o jovem escritor já tinha para si. Como a maioria dizia que ele “iria longe”, o rapaz então não viu problema em planejar seu caminho. Os textos foram postados e ele mal conseguia dormir diante da empolgação com os resultados que viriam, já imaginava a gama de comentários e apoio que ele receberia pelo grande passo dado.
Mas nada aconteceu.
Entristecido, o rapaz percebeu que visualizações eram consideráveis, mas não havia comentários ou curtidas. Não havia palavras de incetivo. Não havia críticas, construtivas ou não.
Não havia nada.
Cabisbaixo, ainda pensou na possibilidade de que, diante dos elogios que recebia com frequência, as pessoas optaram para elogiá-lo pessoalmente, os conselhos e críticas viriam de uma forma muito mais interessante do que um simples comentário na internet. Com tal pensamento, o jovem se animou e aguardou pelos elogios.
E vieram.
As pessoas iam até ele para elogiar a iniciativa, dizer que deram uma olhada e que gostaram do que tinha visto. Maravilhado, o jovem escritor perguntava do qual texto elas gostaram mais ou que acharam das mudanças de narração que ele optou para textos diversos. Constrangidas, as pessoas davam suas respostas:

“É que eu não tive tempo de ler nenhum ainda, mas eu juro que irei ler...”
“Ah, na correria, eu só li um e nem terminei. Mas estava ótimo, você é fera!”
“Que isso, cara, eu não preciso ler nada pra ter certeza de que você é realmente bom”

Desanimado, o pobre rapaz percebeu que de “grande escritor” as pessoas só diziam da boca pra fora, em um encorajamento que ele não precisava. Que escrevia bem ele sabia, o que necessitava, no entanto, era que as outras pessoas reconhecessem isso. E por muito tempo, ele achava que elas reconheciam. Porém, quando colocadas a prova, nada faziam. Não dedicavam um mísero pedaço do seu tempo para contemplar aquilo que elas tanto elogiavam. Nem mesmo para terem certeza daquilo que diziam.

O jovem escritor, pobrezinho, abandonou a carreira. Deixou que seu lado escritor morresse, passando a ser apenas “jovem”. Só mais um jovem, sem diferencial nenhum, sem ambição nenhuma.

Morria, ali, um grande escritor em potencial.

Desiludido com a vida, angustiado com o descaso, desanimado demais para continuar.
4 comentários
  1. Sabe o que isso me lembrou? Aquele versinho do Pessoa "O poeta é um fingidor. Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente."
    O ponto é, espero que não desista da escrita apesar desses momento probatório no qual tá passando, mesmo que precise usar da tática de transformar as angustias em em cronicas ou rascunhos, continue.

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    1. É exatamente isso, sabe. Mas eu vou tentar, de novo. Vamos ver no que dá, esse tipo de coisa é extremamente comum, mas nunca foi tão visível, sei lá. MAS, obrigada pelo apoio, eu prometo que vou continuar tentando. ♥

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  2. Caramba... isso aconteceu comigo! Mas Srta. Valadares... Se essa narrativa for um manifesto, pode tratar de reanimar e continuar escrevendo! Como a Pryh falou: "mesmo que precise usar da tática de transformar as angústias em crônicas ou rascunhos, continue"!

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    1. Então, a narrativa foi um desabafo, na verdade! Eu andei pensando muito sobre isso, até chorei e tudo (inclusive, falei sobre no último vídeo), mas um papo com o meu pai me fez refletir e tentar.... de novo! É uma coisa complicada, isso tudo, você bem sabe. Porém, mais uma vez, vamos tentar, nem que seja pra escrever só derrota HAUAHUAH

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