#BlackPinupGirls — Priscila Braga:"Eu, os outros e o sistema";

• e-mail

(Sente e tenha paciência)
Relações humanas são especialmente complexas. Somos seres centrados no nosso próprio umbigo e tudo gira em sua órbita. A partir desse pressuposto o homem instituiu na sociedade o sistema que lhe convinha, para bem lhe servir. Se olharmos um pouco para a forma como o sistema brasileiro se consolidou, percebemos que ele foi feito para ser gozado pelos que o geraram, apenas por esses. Obviamente, num país onde uma cultura domina sobre outra, esse plano pode não dar muito certo e existe uma tendência forte dos filhos desse mesmo sistema crescerem sendo ensinados que o bom, o virtuoso, o padrão é aquele que foi posto acima do que já era. E essa é a história de como caminhamos para baixo, no que diz respeito às diferenças, ou, reduzindo a miúdos, a história do Brasil.


Sou professora em formação, e o que me impulsiona à inconformidade é justamente o peso da responsabilidade de quebrar com esse paradigma colonizador na mente dos meus estudantes. Antes de tudo me identifico com o perfil de meus “filhos”, como acabo os chamando - sem querer -. Eles estudam em escola pública, moram em periferias, e vêm de uma estrutura familiar muito marcada por problemas e, mesmo que seja difícil pra eles admitir, eu consigo percebe-los como negros. Me identifico com eles porque venho de um lugar bastante parecido e quando os olho é como se contemplasse a mim mesma no espelho. Isso me move.


Meu processo se deu depois de mergulhar num universo de problematização chamado Universidade do Estado da Bahia, do qual tenho até certo orgulho de ser filha. Foi no campus 1 que pude ampliar minha visão de mundo, a partir de 2012, quando ingressei do curso de Licenciatura em Pedagogia. A medida que o mundo ia se descortinando um pedaço do meu ia caindo junto. Durante essa trajetória eu mudei demais e percebi três dimensões que permearam a minha consciência: minha visão de mim, minhas relações com os outros e meu lugar no sistema. Pra ser didática, discorrerei sobre os três contando como se deram esses processos (pra não largar o osso do ofício)


1. Eu
O primeiro grande entrave que encontrei enquanto mulher negra, estava dentro de mim mesma. Romper com o paradigma de beleza é um constante aprender que implica dor em algum grau. Não é incomum encontrar mulheres negras contando como elas se sentiram péssimas consigo mesmas um dia. Seja por conta de um traço facial ou uma textura de cabelo, por exemplo. Quase todas as negras com quem conversei mencionaram algum tipo de problema nesse sentido, com auto estima derrubada e não aceitação. Eu sofro com isso e mesmo que isso pareça só um problema primário, preciso matar um leão por dia na minha cabeça. A minha relação com meu cabelo (meu exemplo preferido) é o retrato disso. Alisei por algum tempo e odiava meu volume, tudo isso porque eu não fazia parte do grupo das lisas. Da mesma forma foi com o tom da minha pele, onde eu tentava achar sempre um tom acima do meu pra me sentir um pouco menos negra e para me dizer mulata, moreninha ou qualquer coisa que não fosse preta/negra. Vou e volto sempre pra esse lugar. O eu é algo influenciado também pelo outro, o que torna essa dimensão o meu ponto de partida e meu ponto final. Difícil discorrer sobre ela.


2. Os outros
Quando tive alguma coragem de me por pra fora, imediatamente esse foi meu próximo lugar de conflito. Os outros podem começar na nossa casa, com a negação de quem nós somos e imposição de um modelo do que parece como “princípios familiares da boa reputação”; nos nossos amigos, que acham que são muito bons por terem uma amiga negra e “olha pra mim, não sou racista”; nos nossos casos amorosos, com a questão da hiperssexualização da mulher negra e sua dificuldade em se ver num relacionamento; colegas de trabalho, que ficam impressionados com como nós conseguimos chegar ali e se foi pelo sistema “injusto” das cotas; em algumas instituições religiosas, que não estão preocupadas com a sociedade e tapam os olhos pro racismo, afinal de contas, isso não é assunto de igreja. E sim, é impressionante como uma pessoa só pode viver tudo isso, eu mesma.


Muitas de nós acabamos sendo silenciadas pelo constrangimento de não comprometer pessoas tão próximas e não raras vezes nos sentimos culpadas por estar magoadas com o equivoco alheio. Existem pesquisas sobre a afetividade da mulher negra e como esta é colocada e se coloca nessas relações. Percebo a necessidade de empoderamento dessa mulher e vejo-a ocupando um espaço de protagonismo muito forte. Ouso arriscar num perfil. Fiz uma “pesquisa” no whatsapp uma vez e notei que das mulheres negras da minha lista de contatos, 90% têm destaque no que fazem e dessas mulheres, todas são solteiras. Não quis admitir que pudesse ter relação, mas tem e científica (vide recomendações no final do texto).


Acabo me valendo desse empoderamento que a ciência dá. Li uma frase pichada em um dos muros da minha cidade (Salvador) que expressa um pouco do que acontece comigo como consequência disso: “um preto consciente é um preto descontente”. O conhecimento é uma defesa e ele me impulsiona pra cima, então se torna uma responsabilidade e me sinto bem em poder fazer algo pra mudar, além de permanecer num lugar de compromisso e respeito com minha cabeça.


3. O sistema
É dentro dessa estrutura macro que as duas dimensões acima se fazem e eu diria que essa é a raiz de tudo o que foi apresentado. Como disse no começo, a forma como se instituiu nossa maneira de pensar enquanto nação não contemplou as culturas várias presentes no Brasil. Somente uma, que é a hegemônica, retratada nas mensagens iconográficas da nossa mídia, na pouca preocupação com a formação de nossos educadores, nos serviços prestados, nas imposições que se fazem às nossas formas de nos relacionar, nos processos seletivos e em grande parte dos processos avaliativos. Esse sistema gera pessoas e pensamentos e financia o racismo, que privilegia uma parcela pequena de pessoas enquanto nega a outra o acesso a bens culturais. O sistema está em todas as relações.


Não precisamos ser iguais, seriamos apáticos. Não lutamos para sermos iguais ou parecidas com as brancas. Apenas queremos o direito de ser quem somos sem que nos considerem subalternas ou “negrinhas atrevidas”. Não queremos ser homenageadas no dia 20, queremos direito de acessar bens culturais, materiais, sociais, acadêmicos, econômicos todos os dias. Resistimos a padronização, queremos mais que isso. Queremos ser, deixem-nos ser e nos dê condições para isso sem nos punir.

Notas e recomendações
Eu queria poder escrever sobre tudo de uma vez só, mas não consigo, então recomendo algumas coisas para ler e ouvir e, sobretudo, pensar sobre determinadas questões.


Das leis:


Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico Raciais, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afrobrasileira e africana em todos os sistemas de ensino do Brasil. Todos os sistemas incluem escolas publicas e privadas, universidades públicas e privadas de todos os estados do nosso país. É tudo MESMO! (assunto pra outro texto)


Nossa amada e odiada lei de cotas.


Dos livros e artigos:


Sobre as bases do racismo no Brasil, que me refiro na primeira parte do texto e no tópico 3, pode-se encontrar mais do que eu disse no capitulo escrito por Giralda Seyferth “O Beneplácito da Desigualdade”; sobre o argumento de que não somos todos iguais, que me refiro no último parágrafo, o capítulo “Ações Afirmativas: aspectos jurídicos” do tão conhecido Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF.


Morri de alegria ao descobri (hoje mesmo na revisão do texto) que ele tinha em pdf. Será quase um presente pra quem se interessar pelo tema, que me refiro no tópico 2. Sobre a afetividade e relações da mulher negra.


Das músicas:


Cenas fortes no clipe, história real; letra forte também. O clipe que eu parei para ver no meio da escrita do texto.


Música que ouvia enquanto escrevia o texto.


Música que uso com os meus estudantes para falar sobre composição do povo brasileiro, bem didática e esclarecedora.
0 comentários
Postar um comentário