[COLABORAÇÃO] Casaco velho;

19:17

    

        Estávamos sentados de qualquer jeito no seu sofá de molas. A sua perna estava em cima de mim então aproveitei aquele momento para perceber que os seus pelos era meio lisos, meio encaracolados. Eu gostava da sua falta de padrão. Então quando você acabou de engolir a última pipoca do balde que te comprei na nossa última saída juntos você me fitou com esses olhos que causam medo e pronunciou. Eu não ouvi, ou me recusei a ouvir, não posso chegar a uma conclusão, apenas me lembro de vê-lo fazer aquilo com o canto da boca e se levantar, segurar as minhas mãos e beijá-las.
         Peguei o meu casaco que havia jogado horas antes no chão do quarto e saí. Não havia mais nada para mim ali. Enquanto descia as escadas o ouvi chutar a mesinha de centro e depois cair no chão. Tomara que não tenha se machucado - não gosto quando sofre. Ao chegar no portão, minutos depois, percebi que havia caído um pingo de chuva no meu rosto. Era tudo que eu precisava, uma cena dramática estava sendo formada e eu era o protagonista, como sempre fui em todas os momentos ruins que passamos juntos. Mas não mais.
         Percebi aquela árvore a metros de distância da sua casa, ela não deixava os pingos chegarem ao chão, então sentei junto as suas raízes. Os meus joelhos estavam colados ao meu rosto e os meus braços estavam formando um nó em volta das minhas pernas - apertei com tanta força que o resultado foi uma falta de ar momentânea. Os meus pulmões precisaram de um comando consciente para transportar oxigênio para o meu organismo, organismo o qual estava desistindo.
         Aconteceu tudo ao mesmo tempo, as lágrimas que se misturavam as gotas que conseguiram atravessar as folhas da árvore, o barulho de milhares de palmas, os meus soluços, o nosso último momento juntos - deitados na cama de lençóis azuis, pois eram os seus preferidos. Pude sentir os seus lábios sendo agressivos e se encaixando nos meus como peças de quebra-cabeça...
         Eu já estava completamente encharcado quando me pus de pé e comecei a andar em direção a lugar nenhum. Desejei que esse tal lugar fosse o mais perto possível porque talvez eu não aguentaria dar nem mais um passo sabendo que tinha deixado para trás. Sem lutar. Não  me daria ao trabalho.
         Orientei cada passada direita, esquerda, direita, esquerda... até chegar na esquina onde te vi pela primeira vez. Aquele lugar me fez parar por um instante. Eu lembro exatamente o que você estava fazendo, o que vestia, como estava o seu sorriso e nada daquilo mais fez sentido por um minuto inteiro. Esse minuto inteiro foi mais do que suficiente para que eu revivesse tudo novamente, cada gargalhada, cada olhar misterioso, cada sinal que você dera dias antes.
         E embora a sensação de derrota esteja me cobrindo como um velho e confortável casaco de frio, chegaria o tempo em que eu o tiraria de mim para a chegada de um ar mais quente e permanente. 

Escrito por: Ramilton Barbosa.

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Ramilton Barbosa ainda tem vinte e poucos anos, mas sente que é velho demais. Gosta de ler, escreve alguns YAs particulares, assiste mais séries do que deveria. Além de insistir em piadas que só faz sentido pra ele. 

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2 comentários

  1. apenas uma correção "fui em todas" não seria todos?
    Em principio achei o texto meio confuso, mas se analisarmos pelo ponto de vista de um termino a confusão faz sentido, já que são muitos sentimentos emaranhados. Então, pensando assim, foi um belo texto.

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    Respostas
    1. A ideia era deixar o momento conturbado, sem direção, pois era assim que o personagem se sentia, talvez isso tenha causado a confusão. Quanto a correção acho que o erro de digitação foi o vilão. Seria "como sempre fui em todas (as cenas) dos momentos ruins que passamos juntos".
      Obrigado,
      Ramilton Barbosa.

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