Um ano que nos separa de seus olhos verdes;

10:22

Poderia ser um dia comum.
Eu estaria nas ruas, morrendo de sono, rumando a Lotérica mais próxima para pagar as contas de casa, já ciente da quantidade de pessoas que estariam na fila e que levaria pelo menos meia-hora para que eu pudesse voltar para casa e sair do calor daquele espaço.

No meio do caminho, como algumas vezes aconteceu, eu o encontraria. Na mesma alegria de sempre, nos cumprimentaríamos e um caloroso abraço seria dado.

- E aí, Thiarlley, já terminou a faculdade? – Seria a sua pergunta. Eu negaria com a cabeça.
- Termino esse ano, se tudo der certo. – Eu daria de ombros e ele negaria com a cabeça. – E você, hein, vai voltar quando?
- Mas termina sim, oxente! – Ele olharia os lados como de costume e então iria coçar a nuca, em um claro de sinal de complicação. – Rapaz, eu nem sei. Tem que ver aí com esse FIES, né...

Nós então mudaríamos de assunto e chegaria o que nós tanto falamos no ano passado: São Paulo. A saudade da grande metrópole, nós falaríamos de todos os passeios que tivemos, do preço das passagens, dos planos que tínhamos para as próximas viagens.

- A gente podia ir nós três juntos no mesmo voo, eu sempre vou sozinha. – Eu falaria, claramente empolgada com a história. Ele riria com a minha empolgação.
- É mesmo, a gente pode combinar isso então. Quando você vai? – Seria a sua pergunta. Eu responderia que ainda nem sabia quando, mas que era provável nas férias.

Começaríamos então a estipular datas, possíveis linhas aéreas, e até lugares que a gente não foi nas viagens anteriores. “Você saiu mais que eu”, “Eu nem fui no Starbucks”, “A gente podia sair todo mundo junto”. E depois de muitos planos, nos despediríamos, afinal, eu ainda iria pagar as contas e ele provavelmente teria algo para fazer também. Com mais um sorriso e um aceno, diríamos “até depois” e cada um seguiria seu rumo.

Mas a probabilidade dessa conversa acontecer não existe mais.
Num feriado qualquer, quando todos estavam aproveitando do descanso para se divertir ou simplesmente relaxar, o improvável aconteceu.
Atlético como era, ninguém nunca pensou que algo do tipo fosse acontecer justamente com ele.

Após uma longa partida de futebol com os amigos, ele decidiu mergulhar.

Ele mergulhou e seu corpo retornou sem vida.

Ele mergulhou em águas profundas o suficiente que o levaram de nós. Assim, de uma hora para outra, tão rápido quanto um piscar de olhos.

A garganta se fechou, a água adentrou sem o direito de estar lá e assim o levou.

E então se foi.

Sem nem mesmo termos tido preparo para aguentar, sem nem mesmo termos dito tudo que queríamos, sem nem mesmo termos olhado nos olhos verdes tão brilhosos uma última vez.

Nos faltaram palavras na boca,
 e sobrou a dor no coração.

A dor de reorganizar a vida sem ele.
A dor de todos os sonhos interrompidos, os planos frustrados, a vida terminada.


E o que nos restou além disso tudo? A certeza de quem ele era. O rapaz que desde sempre foi exemplo. Gentil, sorridente, educado, dedicado a família. Um atleta como poucos. Atencioso, tímido algumas vezes, brincalhão quase sempre, sonhador.

O que nos restou foi uma saudade, meu primo, mas uma saudade que nunca vamos saciar.

Talvez a gente acostume.

Mas isso é só um talvez.

Em memória de Iran Valadares
25.10.1993
09.02.2016

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4 comentários

  1. Maristela Valadares9 de fevereiro de 2017 10:57

    Uma das minhas Maiores Saudades!

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    Respostas
    1. Oi, Mari! Obrigada por comentar.
      Eu imagino o quanto você sente falta dele. Eu sofri muito com a morte de Iran e na minha cabeça não fazia sentido, afinal, nós não éramos tão próximos. Mas nos conhecemos desde crianças, somos parentes e, acima de tudo, ele era um menino de ouro e que tinha um futuro enorme pela frente.
      Que o Senhor nos conforte, te conforte, pois sei que a saudade é grande.

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  2. Ai, que triste :( sinto muito. É difícil ficar imaginando como as coisas teriam sido, mas agora o que passou passou, e bola pra frente. Tudo acontece pra nos deixar mais fortes :)

    Beijo!
    http://tipsnconfessions.blogspot.com

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    Respostas
    1. Obrigada! As vezes eu me pego pensando em como ele estaria agora, sabe? Se teria dado certo a faculdade, se teríamos realmente viajado juntos, mas infelizmente é como você disse, bola pra frente. E sim, tudo acontece para nos deixar mais fortes.
      Obrigada pelo apoio, moça! Beijos

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