No fim das contas, é só cabelo

22:24


A atitude de assumir os meus cabelos cacheados tomou proporções que eu nunca imaginei. O que começou em 2013 como uma necessidade – pois me via com cada vez menos cabelos, tornou-se quase um ato político. Quase.

Pessoas que eu nunca imaginei passaram a me elogiar, dentro e fora das redes sociais. Como blogueira literária e escritora, nunca pensei que os cachos que me fariam uma influencer. Meninas e mulheres, conhecidas ou não, começaram a me pedir ajuda e sugestões, recebia olhares de aprovação com cada vez mais frequência e a autoestima só subindo mais e mais degraus. O conteúdo do blog aumentou, agora, além de contos, crônicas e resenhas literárias, os “cabelos cacheados” ganharam um marcador e passaram a ser o segmento mais acessado aqui dentro.

Os cachos, assim como os livros e o k-pop, me deram ainda mais amigos e amigas.

Com toda essa atenção voltada para os fios que cresciam na minha cabeça, uma hora ou outra os problemas iriam aparecer. Comecei a trabalhar logo após sair da faculdade, assim, minha rotina mudou completamente e me vi sem tempo para cuidar do responsável por toda a minha recém popularidade. A quantidade de cremes aumentava, afinal, estava recebendo bem, mas me faltava tempo e coragem para utilizá-los, ao menos, como deveria. Máscaras, hidratações, umectações, tudo isso fazia parte do meu dia-a-dia com cada vez menos frequência. Cronograma? Quando desse certo!
Mas, meu cabelo permanecia bonito, os cachos modelados, a atenção era recebida. Então estava tudo bem, não é mesmo?

Bom, não.

Há muito eu ansiava cortar o cabelo, mas quando comentava com algumas pessoas, era sempre repreendida. “Mas com um cabelo lindo desses, cortar por quê?”, “Ué, amiga, não faça isso com o coitado”. E então me via adiando e adiando algo que desejava, mas me faltava coragem de fazer. Aos poucos, passei a ver os defeitos existentes nos fios, mas que me eram escondidos pela visão ilusória da atenção que eles recebiam. As pontas duplas, danificadas, quebradas.

No início deste ano, numa transição profissional, decidi mudar e finalmente cortá-los. Ao sentar-me, ter o cabelo lavado e dividido para o corte, informei ao cabeleireiro que seriam apenas quatro dedos. “Se for tirar o danificado, serão mais do que isso”, disse ele. Eu encarei o chão a minha frente e, após um suspiro, fechei os olhos. “Então corte tudo que precisa”, respondi. Perfeccionista, o cabeleireiro demorou mais do que deveria para cortar, aumentando a minha tensão e nervosismo. Enquanto ele finalizava a parte da frente, passei as mãos nos cabelos de trás e percebi que restavam pouco mais da metade, estremeci, mas tentei manter o controle.

Já em casa, com os cabelos lavados, hidratados e finalizados, eu informava os amigos e amigas do corte com animação – usando o calor como desculpa –, mas ainda não conseguia me enxergar no reflexo do espelho. Já seco, notei que enrolados e com leve volume, meus cabelos estavam exatamente do tamanho que eu sempre quis. Quando mais nova, amava cabelos curtos e essa foi uma das razões para alisar os meus, para cortá-los nos ombros.

Os dias passavam e eu os aceitava gradativamente. No fim, percebi que não era algo tão grande como eu imaginei que fosse. Minha vida não deveria e não deve ser baseada única e exclusivamente nos meus cabelos, não deixei de ser escrava da escova e da chapinha para, agora, tornar-me escrava dos cachos. Independente da influência que exerci e exerço para a aceitação dos cachos de quem me rodeia, as madeixas são minhas. E sou a única que sabe o melhor para elas.

No fim das contas, era só cabelo. E bem, cabelo cresce.


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