Ontem, no Dia das Crianças, um amigo me enviou um vídeo de trend sobre orgulhar sua versão mirim. E, depois de ter feito piadas sobre mini Thiarlley olhar nos meus olhos e me chamar de otária (o que, apesar de engraçado, não deixa de ser verdade), lembrei de um vídeo recente que vi, também enviado por uma amiga querida. No vídeo do videocast de Sarah Aline, a cantora e compositora Luedji Luna falava sobre a escrita ser o lugar que ela encontrou para existir.
Enquanto Luedji contava da sua trajetória como cantora e como a escrita se tornou ofício, uma profissão, ela diz “pra mim, essa escrita e essa minha música é muito curativo para aquela adolescente, para aquela criança que foi silenciada”. E essa frase tocou em pontos que Thiarlley de 30 anos e mini Thiarlley entendem muito bem. Assim como Luedji, eu comecei a escrever muito nova. Desde diários, músicas que não rimavam em nada a fanfics interativas, cadernos e páginas do word eram preenchidas pelas palavras que eu precisava dizer.
Mas o meu silenciamento era diferente do de Luedji: enquanto ela não era ouvida, eu era proibida. Criada numa família rigorosamente evangélica, crescendo entre a igreja e a escola rigorosamente católica, eu não era permitida de viver; fui privadas de coisas, das mais simples as mais complexas, porque eram pecado. E, em meio a essas proibições e os anseios juvenis de quem estava apenas iniciando a vida, o grito entalado foi posto em palavras. Primeiro, em diários sigilosos; depois, em contos, romances e fanfics para um público seleto.
Assim, nascia a minha literatura: de um lugar de vontade. Eu não queria mudar o mundo e, para ser sincera, nunca acreditei que poderia. O que eu queria era poder experienciar coisas, ter histórias para contar, rir de bobagens sem o receio de ir para o inferno por isso, ter arrependimentos bobos que condiziam com a idade. Mas eu não podia — e, existindo em um quarto pequeno, com uma caneta roxa de brilho e cadernos ou em frente ao computador que o uso era restrito por horário, eu me acolhi. Dei a mim mesma a vida que eu queria viver, as paixões que eu queria sentir, as histórias que eu queria contar.
Minha literatura me acolheu e me acolhe desde então. Sendo eu uma mulher ariana sem papas na língua, muitos esperam de mim algo diferente ou acreditam que minha literatura deveria ter outro tom já que romances e finais felizes, segundo a perspectiva deles, não combinam comigo. Uma pena, eu diria. Uma pena que a ideia limitada de mim, criada por você, faça com que tenha uma impressão diferente de mim ou da minha literatura.
Outros entendem que as minhas dores devem ser o norte das minhas palavras. Que a partir do compartilhamento dessas dores outras pessoas como eu podem se curar. Eu não discordo, é uma ideia válida, mas essa não é a literatura que eu quero pra mim. Sim, minhas crônicas são ácidas, brinco sempre que “me estressou vai virar crônica no meu blog” e volta e meia estamos por aqui refletindo em questões das mais diversas. Mas a minha literatura, meus personagens, meus romances, eles não têm essa intenção. Não vieram aqui pra isso. Sempre digo que sei que minha literatura deu certo quando eu, uma mulher de 30 anos, sinto-me dando risadinhas e sentindo um calor no coração ao ler amores e vivências que a Thiarlley que escreveu jamais imaginou que viveria.
Essa é uma análise pessoal da minha literatura e do porque comecei a escrevê-la. Não tenho nada contra finais chocantes, dramas, histórias com as mais diferentes intenções; sei que nós, escritores, temos a liberdade de escrever sobre o que quisermos, sejam vivências nossas ou não.
E sabendo disso, escolho constantemente o caminho de me acolher. De escrever por mim e para mim. A minha literatura me salvou; salvou aquela menina proibida de viver a sonhar com algo além daquilo; uma vida além dos nãos.
Porque, no fim, se não fosse por aquela Thiarlley, aquela menina que decidiu pegar a caneta e o papel e mudar, mesmo que de forma fictícia, a própria realidade, eu não seria quem sou. Não é justo comigo, Thiarlley de 30 anos, e principalmente, não justo com aquela Thiarlley. Com aquela menina.
E, sendo salva pela minha literatura todos os dias, não é justo que eu me livre dela para caber na caixinha dos outros e suas visões limitadas sobre mim, sobre o que eu escrevo ou o que eu deveria escrever.






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