Eu nunca serei boa o suficiente para você, não é?

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Se você é +30 anos ou é usuária assídua do Tik Tok, sabe que o título dessa crônica é uma fala da icônica Elle Woods, de Legalmente Loira (2001) que solta essa pedrada ao se dar conta que o ex-namorado, a quem ela quer tanto de volta ao ponto de tentar (e passar!) Direito em Harvard, nunca vai querê-la de volta. O filme é um clássico dos anos 2000, responsável por muitas de nós +30 terem percorrido o caminho do Direito, quebra estereótipos de “loira burra” e reforça a máxima de mulheres independentes e ocupando os espaços que quiserem, como bom filme dos anos 2000.

Mas essa não é uma análise de uma das melhores comédias românticas já feitas. Vamos focar na frase que intitula este post, dita pela Elle, vestida de coelhinho em uma festa de Halloween após ser ridicularizada por outras mulheres que se acharam superiores por não serem “fúteis” como ela. Eu nunca serei boa o suficiente para você, não é? Eu consigo contar e nomear as vezes em que me senti como ela, e não me refiro só a um relacionamento amoroso ou a uma pessoa amada. A sensação de insuficiência — aquela que não importa o que seja feito, dito ou gerido, aquele lugar nunca será alcançado ou ao menos, não por mim, — já me atingiu. Essa sensação me atinge.

Mas até essa sensação ser nomeada, até que a frase de Elle Woods ecoe na sua cabeça, a situação toda é ridícula: você se coloca frente a uma lista de afazeres, ações e falas que te farão atingir aquele lugar ou aquele posto. É uma trilha possível e, assim como o plano de Elle para ingressar em Harvard, parece perfeito: é só seguir aqueles pontos, aquele caminho; ser extraordinária, mostrar que é capaz, também, e pronto. Você será bem-sucedida.

No entanto, a realidade nos atinge de outra forma e não podia ser a pior possível: a insuficiência. Você fez tudo, alcançou patamares inimagináveis para uma pessoa comum, como a própria Elle e a aprovação no curso de Direito em uma das universidades mais difíceis do mundo. 

Mas não foi o bastante. E aí, a frustração é inevitável. Você revisa seus pontos; aquela lista, todos os afazeres, as ações, as falas. Todos tem um check de feito e aprovado, mas o seu objetivo final não foi alcançado. E, então, você chega a conclusão óbvia: a culpa é sua.

Mas será mesmo?

Ser suficiente para outro — seja num relacionamento amoroso, numa amizade, na família, no trabalho ou em qualquer outro tipo de relação humana — depende mais do outro do que de si mesma. De quais são as expectativas do outro para com você, como um todo. Às vezes, o outro tem uma régua inalcançável justamente porque não quer que você a atinja. Ou, quem sabe, o olhar está preso em outra pessoa, com as outras ações — às vezes tão boas quanto as suas ou não — ou porque, simplesmente, ele não quer que seja você. Como Elle Woods, Warner (o tal do ex) não a enxergava como uma parceira ideal porque ela era fútil demais e ele, como um advogado to be, precisava de alguém tão séria quanto ele. E Elle tentou, se silenciou e se moldou para caber na caixa que Warner determinou. Mas não foi o suficiente — e não porque ela não fosse boa, mas porque ele já tinha determinado que ela não era boa.

Às vezes, é difícil separar o olhar do outro sobre si do seu próprio olhar sobre si. E quando esses dois olhares colidem, temos um desastre, porque você não sabe onde a percepção do outro começa e a sua termina. E, emaranhada na percepção do outro, você se invalida e a frase eu nunca vou ser boa o suficiente para você se torna eu nunca vou ser o suficiente. É um caminho esquisito, doído e repleto de dúvidas, mas o primeiro passo para sair dessa espiral é entender: o que é do outro, é do outro, e o que é seu, é seu.

No final do filme, Elle encontra seu caminho para além de Warner e, percebendo que ela venceu, ele a procura. Mas Elle, desprendida da visão dele e do objetivo de tê-lo, o rejeita. Se você precisa lutar tanto para ter ou ser algo pela visão de alguém, tendo que se anular e se diminuir, talvez você não devesse ocupar esse espaço em primeiro lugar. E, quem sabe, quando desprendida da ideia e focada no que é melhor pra você, o outro finalmente se dê conta de que, sim, você era mais do que o suficiente para aquele espaço. Mas aí, talvez e quem sabe, já seja tarde demais.

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