É tudo sobre performance

Nessa nova jornada da vida acadêmica, uma coisa que tem me paralisado é o receio de não saber. Recentemente, eu e mais dois colegas ficamos responsáveis de conduzir a discussão de uma aula e me vi perdendo o sono porque um dos textos era muito denso e de difícil compreensão. Eu conseguia entender, de certa forma, mas, ao pensar em falar sobre, eu não sabia como começar. E ficava paralisada, com receio de parecer que não merecia estar ali.

Mas, graças ao livro “Carta de uma Orientadora” de Debora Diniz, às criadoras de conteúdo sobre estudos acadêmicos e aos amigos que já estiveram nesse lugar, eu consegui sair dessa paralisia. “Não é sobre os textos, é sobre a sua capacidade de gambiarra comunicativa”, disse uma amiga. “No fim, é tudo sobre performance”, disse outro amigo.

A aula foi ótima: através das discussões e percepções dos colegas e do professor, o que não tinha se encaixado na minha cabeça, fez sentido. No fim, de fato, foi sobre performar. Mas, esse texto não é sobre o início da minha jornada acadêmica, este foi apenas um exemplo, o texto é sobre essa tal da performance.

9parusnikov, Getty Images

Performar algo também é sobre não saber lidar com fomo (fear of missing out, ou melhor, o medo de ficar de fora). Porque ficar de fora é não pertencer, não integrar, é ser deixado de lado. É o tipo de coisa que a gente costumava fazer na adolescência ao fingir gostar de uma banda, de uma festa ou de uma situação específica: a gente queria pertencer. E, para isso, era preciso performar.

Existem performances necessárias, é claro, como o exemplo do mestrado. Parecer confiante no trabalho ou na universidade é interessante até para que você possa ser levado cada vez mais a sério. Mas, não é sobre essa performance que estamos falando.

Com a internet e as redes sociais numa espécie de BBB na palma da mão, a performance se tornou cada vez mais rotineira, comum, e a gente não sabe bem onde a performance começa e acaba, porque o filtro não é só um artifício para melhorar a qualidade da foto: ele começa antes da câmera ser ligada. Quantas séries e/ou filmes assistimos apenas pelo hype, cansados de não entender os conteúdos que passam pelo feed? Quantas músicas fingimos gostar ou nos forçamos a ouvir até que o estranhamento passe só para se sentir parte? Quantos de nós guardamos pensamentos, opiniões e posicionamentos para evitar o conflito de não-pertencer? Ou o contrário, quantas opiniões e posicionamentos foram dados apenas pela necessidade de pertencer?

Eu não lido muito bem com a performance porque não consigo me manter nela por muito tempo. Fui perguntada esses dias se não queria criar conteúdo de rotina de estudos, já que esse é um tema em alta e eu estou no mestrado. Primeiro que, depois de cinco anos atuando com redes sociais, o que mais quero é ficar longe das métricas do Instagram. Depois, bem, minha rotina de estudos não tem nada de performática: sou eu, uma touca de cetim, um pijama florido, o tablet e o sofá da minha sala. Com um pausa pra comer algo ou não, às vezes faço tarefa doméstica como algo manual para ficar longe das telas e depois volto. Às vezes eu cochilo no meio e depois volto. Minha rotina não tem velas aromáticas, canetas combinando ou um caderno inteligente. Será que essa falta de performance agradaria?

Será que não estamos todos meio que perdidos na própria verdade, a real ou a inventada, a existente ou a performada? Será que vale a pena vestir uma fantasia ciente de que, no mundo real, ela não é nada mais do que isso: uma fantasia? Será que vale a pena acreditar na própria performance ao ponto de distorcer a realidade e não se dar conta de que nada disso é real? 

Você até pode conquistar o fim que deseja, mas, o processo, essa coisa meio poética que é muito mais sobre ela do que sobre o fim em si, está envolto de performance ao ponto de fazer com que a conquista do fim seja sem graça ou, quem sabe, amarga. Uma coisa meio black mirror, se é que ainda falamos assim, porque com a tal da performance, a nossa preocupação é muito mais parecer do que ser. Mas parecer pra quem? Já que o ser é muito mais sobre autoconhecimento e as convicções de si mesmo, o parecer é sobre o outro, o olhar do outro e as convicções do outro.

E, no fim, vale à pena realmente? Ou, a essa altura, já performamos tanto que não sabemos se é pelos outros, por nós ou pela coisa toda?

0 Comentários