E para os escritores, nada

Escrevo desde 2010 e publico oficialmente desde 2020. O que significa que ao longo desses 16 anos, eu já ouvi todo o tipo de coisa. Desde que ebook não era livro de verdade até que os escritores ficarão obsoletos com a chegada da IA. Como dizemos por aqui, já estou calejada para certas discussões, mas existe uma em específico que me irrita e me incomoda profundamente e é sobre ela que falaremos hoje. 

Foto: Yunzii

Tenho cinco livros publicados. Todos disponíveis de forma digital e apenas um deles em formato físico. Quatro deles custam R$ 5,99 e apenas ‘Não é o que Parece’ custa R$ 7,00; ganho 70% do valor do livro nas compras diretas e R$ 0,01 por página lida quando as obras são consumidas pela assinatura do Kindle Unlimited. ‘Apenas Fugindo: o livro’, o único físico, custa R$ 39,20 e o meu lucro é 10% do valor de capa, sendo R$ 3,92 por livro vendido.

Ou seja, eu gasto mais com a minha literatura do que ganho. Sempre brinquei que o meu “emprego de adulta” (quando tinha) era quem bancava o meu “emprego dos sonhos” de ser escritora. Foi ‘Amor em Lugares Fechados’ que se pagou enquanto publicação e foi só ‘Não é o que Parece’ que, de fato, eu paguei o investimento e passei a lucrar. Estou contando essa história toda para que você possa entender que não, eu não posso te dar um exemplar do meu livro só porque nós nos gostamos muito. Na verdade, se você gostasse realmente de mim, entenderia que comprar a minha obra é muito mais um ato de afeto e apoio do que ficar me pedindo de presente porque temos algum tipo de relação. Os meus ebooks custam MENOS de dez reais, sabe? Será que realmente é preciso piratear as minhas obras para ter acesso a elas? 

Porque quando você pede um livro físico de graça, quando você diz que um ebook não é nem livro de verdade e por isso não vai pagar por ele, quando a ideia de pagar uma assinatura de um aplicativo de livros digitais soa totalmente absurda (mas a Netflix e a Amazon Prime estão em dia, não é mesmo?), você está dizendo que o nosso trabalho intelectual não vale de nada. Que a nossa criatividade, o tempo de escrita, o planejamento de publicação, os serviços de revisão e capa pagos e todo o processo para colocar um livro no mundo não valem o seu investimento financeiro. 

Isso me cansa. Me cansa muito. Eu já não tenho como falar sobre isso de forma mais didática e condescendente possível. Se mais alguém vier me pedir um livro autografado e de graça só porque temos alguma relação, eu sinceramente, não sei o que farei. Talvez eu grite, talvez eu xingue, talvez eu de fato compre o livro e jogue na cara dessa pessoa. Porque viver na constante desvalorização, principalmente daqueles mais próximos, é a maior decepção possível na vida de um escritor.

Aliás, a sensação que eu tenho é de que os únicos a valorizarem o trabalho de um escritor são os outros escritores ou os demais artistas num geral que sabem o que é viver em constante desvalorização do próprio trabalho. E a eles, a essas pessoas que enxergam o meu trabalho intelectual e o meu tempo como algo digno de investimento, minha gratidão.

Aos demais, para essas pessoas que insistem em buscar argumentos para não valorizarem o meu trabalho, gostaria de lembrar que afeto não enche barriga. A melhor forma de apoiar um TRABALHO é pagando por ele, seja intelectual ou não.

E chega, sabe? Eu não vou mais falar sobre isso.  Esse post veio como um ponto final. Talvez a partir de agora, quando essa chatice vier, eu só mande esse link.

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