Aprendemos com o ditado popular a grama do vizinho vai ser sempre mais verde que o ideal é não se comparar com a trajetória alheia e entender que às vezes só é verde pra você que está olhando de fora. Com essa coisa de internet e rede social a gente está sempre diante das gramas alheias, muitas vezes verdíssimas (e nada nos garante que esse verde tão brilhoso não seja filtro).
Pensar nisso, nessa coisa da grama do vizinho, a cor verde, e como a luz do sol faz com que esse jardim pareça muito mais bonito da nossa janela, me faz recordar de uma situação incômoda que me ocorreu por alguns longos anos. Em um ambiente de trabalho, fui escolhida por uma pessoa para ser a rival dela. Eu, alheia à essa situação, segui minha vida existindo do meu jeito, fazendo o que acreditava que precisava ser feito, sendo quem eu era. Mas pra essa pessoa, dentro da cabeça dela, nós vivíamos uma competição: e era obrigatório que ela ganhasse. Não importava se eu nem mesmo sabia que estávamos competindo; não importava se tínhamos idades diferentes, trajetórias diferentes ou se eu era indiferente à atenção que ela queria tanto receber. Nós não exercíamos nem a mesma função e não tínhamos nada em comum a não ser o gênero. Mas, na cabeça dela, essa era uma disputa diária que só terminaria quando ela ganhasse.
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| Foto: Pinterest |
Levou um tempo para eu entender o que acontecia e quando, finalmente, me dei conta de que o problema não era eu e que nada do que eu fizesse adiantaria, fiquei em paz. E essa paz foi alcançada em sua plenitude quando não mais fiz parte desse ambiente e foi preciso restrição/remoção/bloqueio em redes sociais para que essa disputa que só existia na cabeça dela não continuasse, mesmo após a minha saída. E é muito doido que, até hoje, não sei bem qual foi a razão para que essa disputa, a qual eu não queria participar, começasse. E, então, lembrei de um dos vídeos de Victor Vaz “eu não me acho melhor que você, mas você acha que eu sou melhor do que você” e então a chave virou.
A gente tem essa mania meio estúpida não só de se comparar, mas também de não nos dar os devidos créditos. Inseguras com nós mesmas, é muito mais fácil enxergar o problema na outra do que dentro de nós. Principalmente nós, mulheres, que fomos ensinadas a odiar umas às outras, não conseguimos lidar com a diferença ou até mesmo com a possibilidade de dividir a atenção — seja masculina ou não, mas principalmente pela visão de um homem, mesmo que não seja aquele que temos interesse, ainda assim, é importante que ele goste mais de nós do que das outras.
Ao tentar responder essas perguntas finalmente nos damos conta de que, talvez, não valha a pena. De que essa competição é muito mais de nós para nós mesmas e escolhemos a outra apenas para que essa voz insegura que habita nossa cabeça ganhasse um rosto. Essa competição não leva em conta algo muitíssimo importante: nossas trajetórias são diferentes, somos pessoas diferentes e, muitas vezes, temos (ou não) privilégios diferentes. Algumas de nós possuem, por exemplo, o privilégio de sequer saberem que essa competição existe. E, se soubessem, deixariam claro que não a querem.
Não amamos a nós mesmas, por isso não podemos amar uma à outra. Porque vemos no rosto da outra o nosso próprio rosto, o rosto que nunca deixamos de querer. Porque sobrevivemos, e sobreviver gera o desejo por mais de si. Um rosto que nunca deixamos de querer, ao mesmo tempo que tentamos destruir. — Audre Lorde em Olho no olho: Mulheres negras, ódio e raiva (Irmã Outsider. Autêntica Editora, 2019)
Os outros são os outros, seus jardins sendo verdes ou não, com flores mortas ou não, com luzes piscantes ou não, ainda são os outros. Por que a trajetória deles ou quem eles são importa tanto na sua? Quem disse que o outro era melhor que você? Foi o outro ou você que, dentro da própria cabeça, se sente tão insegura em ser quem se é e por isso determinou que precisa ganhar algo?
No fim, se você analisar bem e olhar ao redor, está nessa competição sozinha. Espero que dia você também consiga sair.





1 Comentários
Eu simplesmente amei essa crônica. Pq, ela é muito real. Nenhuma experiência é individual msm. Impressionante. Parabéns pela escrita ❤️
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