Desafio das imagens — Three years;

Yay~
Pra compensar a demora nas postagens, mais um textinho da série "Desafio das Imagens" pra vocês.  



Três anos.
         Exatos três anos havia se passado desde nosso último encontro nessa mesma cafeteria, e só agora eu finalmente tive coragem para estar aqui de novo. Eles ainda serviam leite e mel, e os cupcakes ainda tinham as mesmas tonalidades e enfeites nos seus confeitos. O de baunilha com gotas de chocolate ainda era feito da mesma maneira. Era seu preferido. Ela dizia que pareciam pequenos dálmatas ou estampas dos anos 50. Achava vintage. O meu sempre fora o de morango. Sua cobertura rosa e a pequena folha verde em cima me lembravam da época que nós duas éramos pequenas e eu tinha obsessão pela moranguinho. Esse também ainda era confeitado da mesma forma.
         Infelizmente.
        
         Cheguei e me sentei numa mesa distante da que costumávamos sentar. Era como se eu ainda pudesse nos ver ali, conversando. Ela havia feito compras para o início das nossas aulas do último ano. Sempre fora fascinada por caderninhos. Eu apenas ria e escolhia uma daquelas para ser minha e ela se negava a me dar. Depois de muita chantagem, a de capa preta com pequenas bolinhas e desenhos aleatórios ganhou uma nova dona. As outras duas, seriam guardadas com muito sigilo e longe das minhas chantagens, segundo ela. Eu ri e mostrei a língua.
         Um sorriso triste tomou conta dos meus lábios e uma atendente veio até mim, a mesma daquela época. Provavelmente já sabia o motivo da minha ausência por tanto tempo e o porquê de Louise não estar ali comigo. É claro que ela sabia, a cidade inteira sabia. E isso era o pior de tudo. O olhar de pena das pessoas sobre mim, a forma como tentavam me consolar era a mais inútil possível. A atendente não disse nada, apenas me perguntou se eu queria o de sempre e eu meneei a cabeça em positivo. E então ela saiu, caminhando devagar, como se quisesse me dizer alguma coisa, mas não sabia o quê. Outra coisa que se tornara comum desde aquele dia.
         Ninguém sabia o que me dizer.
         Meu pedido chegou e quase pude ouvir a voz de Louise ao encarar a garrafa de suco de frutas, cujo líquido tinha uma tonalidade rosa claro, de longe parecia um vidro de perfume feminino.
         “Não sei como você consegue tomar isso, parece o perfume da minha avó.”
         Eu ri sem ânimo e o abri, deixando que o cheiro maravilhoso e industrializado do suco adentrasse as minhas narinas. Fazia tempo que eu não sentia aquele aroma.
         Exatos três anos.
         Dei grande gole direto da garrafinha – mesmo que houvesse um copo ali – e encarei a rua pela janela, recebendo as lembranças que eu não queria como um tapa na cara. Vários tapas na cara.
         Louise acenava pra mim. Eu precisava ir pra casa mais cedo para ajudar a minha mãe nas compras e ela passaria na farmácia para coisas que o pai dela havia pedido. A farmácia era do outro lado da rua e ela esperou que o sinal fechasse. Eram quatro horas da tarde de uma quinta-feira. Quem dirige bêbado num horário como aquele?
Um carro de luxo vermelho ultrapassou o sinal vermelho e a única pessoa que ainda atravessava a rua era ela. Louise ainda olhava pra mim, eu ainda olhava pra ela. Ele não se deu ao trabalho de frear, muito menos de parar. Minha amiga estava no chão, suas coisas espalhadas pela faixa de pedestres. Seus preciosos caderninhos agora largados à beira da calçada. Ela ainda olhava pra mim. Seus olhos azuis fixos em mim demonstravam dor, e os meus, desespero. Pessoas se juntaram ao seu redor e eu continuei parada. Não acreditei no que acabara de acontecer.
Só então a fixa caiu e eu saí as pressas, uma ambulância já havia sido chamada. Louise tinha dificuldade em respirar e procurava por alguém conhecido em meio aquelas pessoas. Ela procurava por mim. Seus olhos demonstraram alívio ao me ver e sua mão procurou pela minha, devagar e com fraqueza. Eu não conseguia dizer nada e nem precisava. Apertei meus dedos contra os seus e ela sorriu sem forças.
“Vai ficar tudo bem.” Falei, como um clichê. Eu nem sabia o que deveria pensar, muito menos em como ela ficaria depois daquilo.
“Eu sei.” Ela mentiu. Eu sabia quando ela mentia. Provavelmente sentia dores por todos os corpos, talvez tudo já estivesse escuro desde aquele momento, desde quando segurou a minha mão.
A ambulância chegou, a polícia também. Pessoas contaram o que viram, outros apenas discutiam, outras tentavam ajudar. Um senhor decorou o número da placa, mesmo diante de tamanha velocidade. No ano seguinte se descobriu de quem se tratava, Robert Stanford. Filho de família rica, dirigia alcoolizado e não tinha carteira de motorista. Como era de se esperar, não recebeu a punição que merecia.
Louise foi levada ao hospital, mas ela não resistiu. Foram 40 minutos de tentativas falhas de fazê-la viver, até que seus grandes olhos azuis ficassem pálidos e sem cor.
A atendente voltou e tocou no meu ombro, fazendo com que eu saísse daqueles pensamentos. Eu estava chorando e nem percebi. Enxuguei os olhos e me virei para ela, curiosa. Eu não a tinha chamado, estava confusa com aquilo. Ela sorriu fraco e me entregou uma sacola. Não havia pedido nada, estranhei mais ainda.
- Naquele dia, depois que tudo ficou mais calmo, encontrei isso próximo a calçada e guardei para entregar a você. Desculpe por não te dar antes, eu não sei onde fica a sua casa e você demorou a vir. – Meus olhos se arregalaram e abri o pacote.
Eram os caderninhos.
         O de capa rosa clara estava um pouco suja e sabe-se bem o porquê. Lágrimas estavam novamente em meus olhos, retirei os dois dali e abri, lendo o nome completo de Louise escrito com caneta de cheirinho que ela comprara especialmente para aquele ano. A atendente se desesperou ao me ver chorar.
          - Desculpe, eu não queria...
         - Obrigada. – Falei logo depois de fungar e limpar os olhos. Ergui o rosto e sorri pra ela, não eram necessariamente lágrimas de tristeza. Não sei explicar o que senti, mas não era unicamente uma mágoa.
         Ela pareceu aliviada e saiu, dessa vez não caminhou devagar. Não se preocupava mais com o que deveria dizer. Meus olhos ainda eram fixos nos caderninhos e a voz de Louise ecoou em minha mente mais uma vez.
         “Vai precisar de bem mais chantagem pra conseguir tirar esses dois de mim.”

         Acho que não, Louise.

         Infelizmente, precisei perder você. 
4 comentários
  1. Thi, mas que crônica mais linda! Sério, fiquei encantada com essa história. Foi diferente do que você costuma escrever e, como já era de se esperar, saiu lindo do mesmo jeito. Tá certo que é um drama, mas é aquele tipo de drama que a gente se sente feliz ao terminar de ler, sabe? E que te ensina alguma coisa. Eu gostei pra caramba, mesmo mesmo mesmo. ♥ O tema da perda de um amigo eu nunca vejo por aí. Sempre fica fechado na mesma coisa e eu achei legal você escolher esse tema "inusitado" pra iniciar o desafio das imagens. E pode apostar que 'cê começou muito, muito bem! Novamente, a gente vê que você tá escrevendo cada vez melhor e se abrindo pra novas possibilidades, novas histórias e eu acho isso lindo. Tô no aguardo das próximas 'imagens' e, novamente, parabéns pelo lindo texto yay ♥

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    1. Ai, eu já te agradeci, mas vou agradecer de novo! ;A;
      Você sabe o quanto eu gosto que você leia TUDO que eu faço e sempre que recebo sua aprovação (sem nada para mudar/acrescentar como foi dessa vez) eu fico feliz demais, sabe? Perceber que eu tô progredindo, que as falhas estão diminuindo e principalmente, saber que ando fazendo vocês chorarem, hahahaha. ♥ obrigada, meu amoooor! E pode deixar, te aviso logo logo quando fizer outro e quero você chorando de novo. yay

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  2. Minha pequena prodígio <3 Eu estou simplesmente amando ver você experimentar novos caminhos de escrita, fugindo do que todo mundo escreve e se jogando nesses dramas de tema diferentes. (Amando e quase chorando, manteiga derretida oi!)
    Apesar de contar sobre algo dolorido, afinal deu pra notar que a Louise era uma importante amiga pra outra personagem, você conseguiu deixar a crônica de uma forma que o final tivesse uma nostalgia de um modo bom. Uma melancolia feliz, eu diria. E isso é algo muito digno da ótima escritora que você vem se tornando. <3
    espero pelos próximos!

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    1. (Primeiro, eu só queria dizer que era óbvio que você iria chorar, oi.)

      Ai, eu fico muito feliz de saber que o final ficou como eu queria, sabe.
      Não era bem pra ser um drama choroso e sofrido, mas sim essa melancolia feliz, como você mesma disse! Obrigada! E eu fico orgulhosa de mim mesma por saber que você se orgulha de mim! ♥

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