Resenha #3 — 'A vida de Jornalista como ela é'

17:59

Título: A vida de Jornalista como ela é; O melhor do blog de Duda Rangel
Autores
: Anderson Couto e Emerson Couto
Páginas: 193 páginas
Editora: Distribuição própria/ Impressão e acabamento: Prol Gráfica
Ser jornalista é uma arte. Daquelas que a gente faz quando criança. Travessura. É curtir jogar Detetive muito mais que Banco Imobiliário. É escutar briga de vizinho com um copo na parede. Ser jornalista é ter fama de paquerador de tanto olhar os lados da rua. É desafiar o tempo. O tempo todo. É ser ranzinza muito antes de ficar velho. Ser jornalista é ser jornalista até nas horas vagas. Por meio de contos, crônicas, poesias e paródias, Duda Rangel fala da vida de jornalista como ela é, com seus encantos e desencantos. Uma vida que não se aprende na faculdade. Dos irmãos gêmeos e jornalistas Anderson e Emerson Couto, criadores do Duda, o livro é uma adaptação do blog "Desilusões Perdidas", sucesso nesses mundos virtuais por aí. Um manual de sobrevivência e bom humor.


A história de como ganhei esse livro já começa engraçada e desastrosa. 
Era o meu primeiro evento de comunicação (sdds Ensecom) e na sexta-feira era o encerramento, o qual eu não queria ir. Depois de muita insistência das minhas amigas, acabei cedendo e fui. Meu ônibus atrasou, deu treta no caminho com alguns estudantes, chegamos em Aracaju um pouco tarde e pegamos trânsito. Na minha cabeça, a frase "sabia que não deveria ter vindo" ecoava várias e várias vezes. Lá, encontrei com a Yasmin, naquela época ela já estava estudando na UFS e fazia tempos que não nos víamos. Ficamos tagarelando do lado de fora do auditório, pois a primeira era de Publicidade e chata, e os gêmeos do blog Duda Rangel só seriam no segundo horário. Enquanto esperávamos lá fora, em meio a uma fofoca e outra, Anderson e Emerson Couto aparecem para dar entrevista para o Unit Notícias. Focamos nos dois.

- A gente deveria ir lá e pedir uma foto.
- Lá vem a outra querendo tietagem.
- Ah, mas fala sério, depois da palestra nem vai dar tempo.
- Ok, quem vai?
silêncio
- Tá, eu vou... - Encara os jornalistas por um tempo. - Ok, eu não vou.
- Anda, menina!
- Certo, certo. Eu vou. - Vestiu-se de toda sua cara dura e foi.

Após vergonhas, fotos, comentários fofos e gentileza mil dos dois, voltamos para o auditório, pois finalmente começaria a palestra. E que palestra minha gente. Ao final, nunca imaginei que ter um nome composto estranho me renderia um livro maravilhoso de brinde que, inclusive, fiquei lamentando a palestra inteira por não ter dinheiro suficiente para comprá-lo naquele dia. 

Esse autógrafo maravilhoso

Divido em dezesseis capítulos, 'A vida de jornalista como ela é' traz contos e crônica sobre a vida do jornalista, dentro e fora da redação, de uma maneira muito divertida e leve. Temas como ética jornalística, o suposto fim do jornal impresso, os dilemas com o assessor de imprensa, sensacionalismo, a queda do diploma e tantos outros assuntos debatidos com tanta seriedade em sala de aula, são apresentados nas páginas do livro com leveza e humor sem igual. Os irmãos Couto, através do pseudônimo de Duda Rangel, trazem a variedade de testes vocacionais, definições do dicionário, paródias de músicas, poemas, tudo muito satirizado e divertido de uma maneira que prende a atenção do leito de uma maneira tão forte, que a gente só consegue parar de ler quando o livro terminar. 

O "jornalista", segundo o dicionário de Duda Rangel

Jornalista — s. m+f+gls 1 Profissional da comunicação que, quando não está desempregado, trabalha na imprensa. 2 Pessoa que rala pra cacete, ganha mal, mas é apaixonada pelo que faz; o mesmo que artista mambembe; louco. 3 O arauto da verdade e da mentira também. 4 Aquele que adora uma desgraça ou uma notícia ruim; urubu. 5 (Psicologia) Sujeito vaidoso, com ego muito grande. 6 (depreciativo) Jornaleiro; fofoqueiro; sem-diploma; reporterzinho; escravinhador. 7 (Sociologia) Indivíduo com grande dificuldade de interação social e familiar, em função de trabalho árduo. 8 (jurídico) Aquele que foi condenado à maluquice perpétua, sem direito a habeas-corpus. 9 (antigo) Profissional que saía às ruas para apurar informações. 10 J. especialista: Aquele que acha que entende muita coisa de um único assunto; J. generalista: Aquele que não entende porra nenhuma de diversos assuntos. 11 (folclore) Alma boêmia que vaga em noites de lua cheia, nova, minguante, crescente ou mesmo em noites sem lua por bares de reputação duvidosa.¹

Desde o início da graduação, ou até mesmo no Ensino Médio, quando dizemos que escolhemos o jornalismo, somos alvos de críticas e lastimas desnecessárias. "Você vai viver pobre pra sempre"; "Estudar quatro anos pra ser fofoqueiro" entre outros. No início, a gente liga. Fecha a cara, reclama e manda o outro para o raio que o parta. Quando conhecemos a obra de Duda Rangel, podemos perceber que de fato, podemos viver pobre pra sempre ou estudar quatro anos pra ser fofoqueiro ou falar das roupas que os artistas da globo usaram no último domingo, mas só será assim se quisermos. Com Duda Rangel aprendemos que não importa a surra que a vida acadêmica ou profissional nos dê, se estamos escrevendo porque gostamos, então que se dane. Que se dane o fato do diploma ter caído, a gente continua acreditando que o bom jornalismo só é feito por quem sabe. E nós somos esse "quem sabe". 

Para os puritanos que não podem ouvir um palavrão que já gritam "Tá repreendido!", aviso que o livro é informal, por isso não se assustem se encontrarem palavrões ou palavras de uso coloquial, afinal, é isso que faz do livro tão bom. A proximidade com o nosso cotidiano. Na faculdade, sempre nos deparamos com volumes sérios, banhados em palavras difíceis com autores de nomes mais difíceis ainda. Os irmãos Couto conseguem satirizar e duplicar o sentido de forma inversa das coisas. Como é o caso do texto "Foi bom pra você?" que conta a primeira vez de uma entrada ao vivo, como se fosse a primeira transa do jornalista. E da lista "20 formas de um jornalista ter um orgasmo", contando as divertidas situações que êxtase na vida de um jornalista como publicações, nome estampado na primeira página e entre outros.

Em todas as paródias, contos, crônicas e listas banhados em humor, o livro traz suas críticas seja ao sensacionalismo exagerado e falta de  ética que vemos nos veículos de comunicação hoje, seja na aprovação da queda do diploma, seja no jornalismo feito de maneira amadora. O livro não traz só diversão, mas faz, de uma maneira bastante fácil, o seu leitor refletir. Leva a futura geração de jornalistas a analisar o que quer fazer, por quem quer fazer, como quer fazer, quando quer fazer, onde quer fazer e por que quer fazer. Leva os aspirantes a jornalistas a fugirem do senso comum, tão falado das nossas aulas, e tão pouco praticado pelos jornalistas nos dias de hoje. Os textos de Duda Rangel, em seu mais sincero humor, é um manual de sobrevivência jornalística.

Provérbios Jornalísticos

Diga-me com quem andas que publicarei na revista de fofocas.
Depois da tempestade, vem a matéria de enchente.
Em terra de pessoa jurídica, quem tem carteira assinada é rei.
Quem nada deve com certeza não é jornalista.
De follow-up em follow-up o assessor de imprensa enche o saco.
Aqui se faz frila, aqui não se paga.
Atrás de uma grande repórter de TV, há sempre um grande produtor.
Quem indica amigo é.
A pressa é inimiga da boa apuração.
Não há folga que sempre dure, nem plantão que nunca se acabe.
De detetive, masoquista e louco, todo jornalista tem um pouco.
A bom entrevistador meia palavra não basta.
Quem não tem fato caça com boato.
Filho de jornalista, pobrezinho é.
Mais vale um frila na mão do que cem vagas de correspondente internacional voando.
Em redação que tem estagiário bonitinho, jornalista cultural caminha de costas.
Quem tem boca vai à coletiva de imprensa filar um frango.
Devagar se perder o deadline.²
 "A vida de jornalista como ela é" é uma leitura que eu indico não só para quem almeja seguir essa carreira, mas para todos aqueles que possuem senso de humor e desejam conhecer um pouco mais do jornalismo, de maneira bastante satirizada. Serve para abrir a mente de muitos que não valoriza a profissão e acredita que qualquer um pode ser jornalista. Bom, segundo Auguste Gusteau (Ratatouille - 2007) qualquer um pode cozinhar, mas aqui, pra ser jornalista, tem que ter vocação.

 O blog Desilusões Perdidas fora desativado no fim do ano passado, mas Duda Rangel permanece na sua página do facebook. Para 2015, boatos que há planos para um segundo livro, boatos. Para adquirir o exemplar, basta clicar aqui


Vida de Jornalista como ela é, A. O melhor do blog de Duda Rangel; 
Anderson Couto e Emerson Couto; São Paulo: 2012
¹: página 13; ²: página 176

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4 comentários

  1. Ai, que saudades desse dia! Nossa, fui invadida por uma tremenda nostalgia agora, porque me lembro dele completamente. Fiquei tão triste por não ter grana para comprar naquele dia ): mas depois ganhei ele autografado de uma amiga <3
    E olha, quero mais eventos como esse hein?! Para a gente aproveitar e se reencontrar.
    Amo esse livro! Tem (muito) jornalismo e ainda de uma forma maravilhosa. Amo, amo, amo!! <3

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    1. Yassss! Que saudades mesmo. Lembro da gente inventando de fazer vaquinha pra tentar comprar livro, mas acabou nem dando certo. HAUAHUAH Que bom que nós duas conseguimos o livro e de presente ainda! <3

      Siiim, boatos que tem Encomun na Unit esse ano de novo, hein?! Aí a gente se reencontra e se diverte de novo. <3
      Esse livro é maravilhoso, sem mais! <3

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  2. Amo quando você posta sobre jornalismo, e suas indicações de livro sempre me deixam empolgada! Obrigada por produzir esse conteúdo maravilhoso! *-*

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    1. Lo <3 e se eu disser que era fazendo o post e lembrando de você? Sério! HAUHAUAH Fico feliz que tenha gostado, esse livro é maravilhoso! Olha, não sabia que gostava tanto das indicações, vou trazer mais então! HAHA

      Obrigada, de verdade! Beijos :D

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