— Caixão na sala;


De todas as dores que ela já sentira na vida, e olha que foram muitas, de longe, aquela era a pior. O estômago já reclamava por falta de alimento e ela sequer se lembrava da última vez que tinha comido. Porém, a vontade de se alimentar era inexistente e, mesmo que quisesse mordiscar o mínimo que fosse, teria que passar pela sala.


A sala.


A sala que, bem no seu centro, onde anteriormente estaria o grande sofá, agora tinha um caixão.


Ela simplesmente se recusava a acreditar. Recusava-se porque, daquele ângulo, a vida parecia muito injusta. O motorista do outro carro que dormiu no volante, não ele. Por que então ele teve que morrer? Por que ela teria que viver sem ele por imprudência de outra pessoa? Por quê?


Receava nunca ter essas respostas. Tinha medo do que seria pela frente, agora sem ele. Sem os sorrisos largos, sem o abraço apertado, sem a atenção durante as conversas na madrugada. Sem o apoio, o afeto, o carinho.


Não haveriam mais canecas vazias sobre a estante para reclamar. Sem mais toalhas sobre a cama, sem sapatos largados na sala, sem ligações as cinco da tarde pedindo para que a trouxesse chocolate.


Sem ele. Pra sempre.


As mãos foram as cabelos e os jogaram para trás. O rosto se ergueu e os olhos escuros começaram a ficar marejados. Então ela se permitiu gritar. Gritou o mais alto e forte que pôde, numa tentativa de aliviar toda a dor que ela sentia, mas sabia que era em vão. Ouviu seu nome ser chamado do outro lado e frenéticas batidas na porta, a maçaneta era girada várias vezes, mas ela ignorou.


Trancada em seu quarto, ela se recusava a sair. Não queria a pena das pessoas, nem mesmo conhecia grande parte delas. Seus "sentimentos" de nada valiam, porque no momento quem ela queria estava deitado, trajando um terno azul-escuro, com as mãos unidas e olhos fechados. Pálido e sem vida.


Quem ela queria estava morto.


Não estava preparada para uma vida sem ele e receava que nunca estaria. Ela NÃO deveria ter que iniciar uma vida sem ele, soava absurdo e inacreditável. Nas mãos, a última camisa usada por ele antes do acidente. Ainda não tinha sido lavada, o cheiro forte do perfume continuava impregnado no tecido. Os finos dedos apertaram a roupa e a levaram ao rosto. Deixou que o aroma adentrasse as narinas e um sorriso melancólico lhes adornou lábios. Quantas vezes não espirrou por causa daquele cheiro, quantas não foram as brincadeiras feitos com excesso de perfume do outro...


Os olhos se apertaram e ela se permitiu chorar mais. Chorar por tudo que ainda não havia dito, chorar pelas bobagens que disse, chorar pela forma tão repentina que ele havia partido.


Chorar pela forma como o tiraram dela.


Com a camisa entre as mãos e ignorando o chamado na porta que ainda acontecia, ela se deitou. Fechou os olhos, cheirou o tecido mais uma vez e fingiu que ele estava ali, sorrindo pra ela. Fingiu que ele a acariciava de sua forma, dando-lhe pequenos beliscos no braço.


E então adormeceu.


Mal abriu os olhos e já se ergueu da cama em súbito, sentindo a claridade lhe incomodar a vista logo em seguida. As mãos trêmulas, o corpo se encontrava tão suado que alguns fios de cabelo grudaram na testa. Estava incerta do que havia, de fato, acontecido. Os olhos escuros olhavam ao redor e não vira nenhum indício que comprovasse a veracidade daquilo.


Amedrontada, ela se levantou as pressas, ignorando a preocupação com os chinelos, tocando os pés quentes no chão frio e sentindo um leve incômodo com o choque térmico. Aos tropeços, dirigiu-se a cozinha, que no momento estava em uma quietude perturbadora.


- Bom dia, meu bem, caiu da cama hoje? - Disse ele, referindo-se ao fato da moça estar acordada tão cedo, afinal, ainda nem eram sete horas.


Aliviada, ela sorriu tão largo que poderia iluminar uma casa inteira, tamanha sua felicidade. Tratava-se de um sonho, afinal. Um pesadelo que, esperava ela, estava longe de acontecer. E ela se certificaria ao máximo para a não realização daquilo.


Na mesma pressa que veio, ela correu na direção dele e o abraçou de lado. O carinho foi retribuído e ele passou o braço pelos ombros dela, beijando-lhe o topo da cabeça.


- E o que foi que acordou tão cedo e disposta desse jeito? - Perguntou novamente, acarinhando o braço da moça, enquanto terminava de servir o café.


Apertando os braços ao redor dele e apoiando a cabeça em seu peito, ela se deixou suspirar.

- Nada não, pai.
2 comentários
  1. Eu fiquei emotiva no final? Fiquei sim. Porque a já não basta ser manteiga derretida tem que tá de TPM.
    Mas enfim me identifiquei muito com o texto, ter pesadelos desse nível é desorientador e basicamente eu teria a mesma reação da moça ali.
    Mas, voltando a escrita, eu adorei o fato de que você deixou que o outro personagem fosse revelado apenas no fim, pois durante a leitura fiquei me perguntando quem era. Gosto desse tipo de montagem.
    Parabéns pelo texto Bolinho!

    XX

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    1. Amiga, dessa vez eu não te culpo. Porque sério, eu chorei tendo a ideia, escrevendo e revisando. HAUAHUAHUH agora eu sei como você se sente. *corre*
      Depois foi que eu percebi que o estilo de narração foi o mesmo de I still love you que, inclusive, é a mesma temática familiar envolvendo pai e filha. Gosto desse tipo de montagem também.
      Obrigada, meu bem ♥

      PS: o final ia ser ali quando ela dorme, mas pensei que poderia ter um final feliz dessa vez xD

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