Opinião — série Dear White People

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS


         Baseada no filme homônimo de 2014 e tendo a primeira temporada lançada no final do mês passado pela netflix, Dear White People ou Cara Gente Branca, não teve tanta repercussão nas redes sociais, ao menos, se comparado com a estreia de 13 reasons why, no final de março.



         Tendo racismo como tema principal abordado na série, Dear White People traz em sua primeira temporada dez episódios com um humor ácido e, ao meu ver, critica os dois lados extremos quando se trata deste assunto. Um exemplo de humor que aborda o tema da mesma forma, foi o discurso de Chris Rock na 88ª cerimônia do Oscar, em 2016.

         Ao contrário da maioria das produções americanas, 90% do elenco é negro e os problemas tratados são ligados a estes. Um exemplo disso é a discussão sobre quem está mais acordado ou não para as tensões raciais dentro da universidade de Winchester, cenário da trama. Há ainda a discussão sobre quem se parece mais negro ou não, diante das roupas e estilo, por exemplo. Coco (Antoinette Robertson) traz em uma de suas falas a seguinte reflexão: “Não importa se está acordado ou não, se você estiver morto” sobre o caso de um segurança da faculdade ter apontado uma arma para Reggie (Marque Richardson).

         Apesar de se encaixar na categoria de comédia, a série também possui o seu drama, fazendo chorar em diversos momentos de racismo, puro ou velado. A cena citada acima, quando o policial pergunta a Reggie se é aluno da universidade, mas não faz a mesma pergunta ao outro rapaz, que é branco, envolvido no incidente é uma delas. A tensão em toda a festa, a arma apontada em um negro, unicamente pela sua cor, o discurso do policial logo em seguida, enfatiza que mesmo após 200 anos de escravidão nos EUA, o pensamento racista ainda existe e é extremamente forte.

         O ponto de partida para o desenrolar da trama é a festa blackface (“rosto preto” ação de pintar o rosto para se assemelhar a negros, muito comum no início do cinema, na não-contratação de atores negros). A festa se intitula “Dear Black People” e tem como objetivo, segundo os organizadores, homenagear os alunos negros da universidade. Para Samantha White, ou Sam (Logan Browning) e para a maioria das pessoas com bom-senso, a festa é o ponto alto do racismo existente dentro da universidade.

         A série aborda ainda o privilégio da pele mais clara, os negros mais “desbotados” como dizem alguns, até mesmo o privilégio dos alunos negro-americanos, já que a Universidade também possui alunos vindos do Quênia, por exemplo. Além de problemas como sexualidade, tensão acadêmica, problemas da juventude, além do polêmico relacionamento inter-racial, ainda visto como um grande problema pela sociedade americana.

         Dear White People está há nove dias no ar e, apesar da pouca repercussão nas redes sociais, já recebeu 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, site que é destinado a reunir textos de críticos de séries e de filmes dos principais veículos especializados, e faz uma média numérica baseada nas avaliações positivas ou negativas feitas pela imprensa, segundo o Adoro Cinema. Apesar disso, ainda falta muito para que o público branco perceba suas próprias falhas refletidas nos personagens brancos da série. Apesar de, aparentemente, ter sido fácil para o público em geral identificar seus erros referentes ao bullying ao assistir 13 reasons why, ao que parece, o mesmo não acontece quando se trata de racismo.

         Se ainda não assistiu Dear White People, bem, a hora é agora. Esteja ciente do que vem por aí e, antes de pensar que isso ou aquilo é vitimismo ou autossegregação, pense nos seus próprios privilégios, pense em tudo que você já conseguiu por ser branco.


Pense em tudo aquilo de ruim que você deixou de vivenciar por ser branco. 

Edit:
Confiram o vídeo do canal Coxinha Nerd falando justamente do silenciamento da internet sobre a série e o vídeo do canal DePretas, da Gabi, falando sobre a série com conhecimento de causa e vivência: 




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