Resenha #24 — 'No seu pescoço'; Chimamanda Ngozi Adichie

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Título: No Seu Pescoço
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Tradução: Simone Lemberg Reisner
Páginas: 240 páginas
Editora: Companhia das Letras
Nos doze contos que compõe este volume, a premiada escritora Chimamanda Ngozi Adichie explora a colisão entre duas culturas e as consequências deste encontro para a alma humana. Impregnadas de beleza, tristeza e esperança, estas breves narrativas retratam um profundo esforço para reconciliar forças à primeira vista conflitantes. o resultado é a afirmação da literatura como espaço de troca por excelência.  
         Eu conheci o trabalho da Chimamanda quando li uma resenha de Americanah (2013) nesse mundo da blogsfera. Com a promoção de Dia da Mulher lançada pela Saraiva, aproveitei para comprar alguns títulos e fui sugerida pelo site para adquirir o No Seu Pescoço e, resolvi fazer o teste. Seria este o primeiro livro de contos que eu leria escrito por uma mulher.

         Para escrever contos você precisa saber escrevê-los. E Chimamanda sabe muito bem o que está fazendo nos 12 contos que completa o No Seu Pescoço. Confesso que o primeiro não me chamou muita atenção, vi-me confusa com muitos termos e localizações, mas do segundo em diante, foi surpresa atrás de surpresa. As histórias são completas e possuem uma imprevisibilidade impressionante, fazendo-me lembrar de um dos contos de Machado de Assis que mais gosto, intitulado “A Cartomante”. 


         Contos como “Réplica” e “A embaixada americana” nos mostram um pouco da dura realidade de países africanos, principalmente a Nigéria, e que não envolve diretamente a fome, como estamos acostumados a ver nos telejornais, portais da internet e vlogs de “voluntários”. O livro apresenta ainda feminismo e assédio, resistência em períodos de ditadura, conflito religioso e homossexualidade. 
    
[...] Uma pequena multidão se formara. Um soldado estava açoitando um homem de óculos com um longo chicote que serpenteava no ar antes de estalar sobre o rosto do homem, ou sobre seu pescoço, ela não tinha certeza, pois as mãos dele estavam erguidas, como se ele quisesse afastar o chicote. Ela viu quando os óculos do homem escorregaram e caíram no chão. Viu o calcanhar da bota do soldado esmagar a armação negra, as lentes escuras. [...] (A embaixada americana, p. 140)


         O conto “No Seu Pescoço”, que dá nome a obra, conta a história de uma nigeriana (que no enredo é tratada na segunda pessoa, como se nós leitores fôssemos a personagem) que vai para os Estados Unidos viver com o tio. As quatorze páginas do conto são de tirar o fôlego com a jornada da personagem principal e nos leva a uma reflexão sobre o preconceito (às vezes velado, às vezes escancarado) que temos nas Américas com estrangeiros de cor. A jornada de uma mulher negra sem recursos tentando ascender na vida, relações inter-raciais.

         No Seu Pescoço é uma leitura quase obrigatória para todos nós que acreditamos ter empatia e conhecer o outro. É necessário pensar em todas as variáveis antes de conceber um (pré)conceito a respeito da vida do outro. Chimamanda consegue, menos de 300 páginas, fazer-nos rir, chorar, refletir, sensibilizar e mudar.

Mudar, sobretudo, quem somos como seres sociais.

2 Comentários

  1. Fiquei curiosa quando vi que você estava lendo um livro dessa autora, porque um amigo havia me falado dela pouco antes. Eu tenho bastante curiosidade de ler literatura vinda de países "diferentes", isto é, que não sejam EUA e Inglaterra, de onde vem quase tudo o que eu leio. Pelo que você falou, me chamou bastante a atenção. Especialmente isso de ela escrever em 2ª pessoa! Tentei fazer isso uma vez, e é uma técnica MUITO difícil. Exige bastante do escritor. Tem que ser muito competente. Se tiver a oportunidade de ler algo dela, certamente darei uma chance.

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    1. Oi, miga! Eu também fiquei muito curiosa sobre os livros dela, pois vi muita gente indicando "Americanah" e "Para educar crianaçs feministas". E, sim, ler livros de países completamente diferentes do que estamos acostumados é muito BOM! E abre muito os nossos olhos para os problemas dos países africanos, indo além do que vemos diariamente sobre o continente. É curti muito. ♥

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