Se você já leu o título rindo ou quem sabe se ofendendo um pouquinho: começamos bem.
Todos nós conhecemos alguém que tem a energia de coitada: aquela pessoa que está sempre em sofrimento, que as ações dos outros para com ela são sempre difíceis demais, pesadas demais, que a vida é sempre “uma coleção de tragédias”. A coitada, essa pobre coitada, quase nunca detém a solução nas mãos, mas o(s) problema(s) sempre está(ão) lá. É sobre essa coitada, essa pobre coitada, que vamos falar hoje. Talvez essa coitada seja você.
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| coitada, essa pobre coitada |
Nós carregamos dores, umas maiores que outras, mas dores existem ou existiriam ou irão existir. As pessoas são grandíssimas filhas da puta quando querem e, volta e meia, somos empurradas, colocadas e forçadas a sentarmos na cadeira de vítima. Isso é uma merda e não estamos aqui para invalidar ou diminuir dores. Segure sua dor aí, na sua mão, é válido saber que ela existe e falar a respeito.
Sim, você não foi colocada nesse lugar por vontade própria, o lugar de vítima te foi imposto. Mas permanecer nessa cadeira é uma escolha. A dor está aí, na sua mão, queimando como brasa. A cadeira de vítima é dura, desconfortável, incômoda. Mas, ainda assim, você quer estar aí. Eu não sei o porquê da sua permanência; talvez, foi por causa da sua dor que você foi ouvida. Ou, quem sabe, a sua dor foi forte demais para que você enxergasse algo além dela. Mas o fato é que, independente do qual seja a sua razão, você escolhe morar na sua dor. E é aí onde está o problema.
Sua dor é legítima e, de novo, não é minha intenção diminuir o que te fizeram ou o que te aconteceu. Mas quando você se mantém na cadeira de vítima, quando você deixa a brasa continuar queimando a sua mão, a dor não é mais parte da sua história. Ela se torna sua identidade. E aí, meu amor, sinto muito te dizer: você se torna a coitada. A coitada, essa pobre coitada, está mais focada no fato de que foi injustiçada, preterida e humilhada, ao ponto de não conseguir perceber que está dando ao outro — aquele que causou a maldita dor — o poder da narrativa.
E você, coitada, essa pobre coitada, focada demais na dor que te causaram ou no infortúnio que foi obrigada a passar, não percebe que a partir de agora quem te levanta do chão é você. Afinal, o que te fizeram não foi culpa sua, mas o que você faz a partir disso que é sua responsabilidade. E como vi no Instagram (e a publicação está ao final deste post), a posição de coitada parece acolhedora, mas cobra postura e, principalmente, autonomia.
Eu já fui uma coitada, várias vezes, porque de diversas formas fui injustiçada, preterida e humilhada. E é uma merda, sim, porque a gente não quer ser injustiçada, preterida ou humilhada, mas a vida não é como a gente quer. Mas nesse lugar de coitada, uma coisa que me aconteceu várias vezes também, foi chorar uma madrugada inteira e isso não resolver o problema. Porque não resolve. Levantar, tomar banho e viver mais um dia, resolveu. Listar o que eu precisava fazer pra conseguir deixar quem me machucou pra trás, resolveu.
Porque tem uma coisa que não te contam sobre ser a coitada, essa pobre coitada: o tempo passa.
E enquanto você estava focada na sua dor, seu tempo passou. Porque o tempo passa. E depois, você se pergunta, coitada, essa pobre coitada, por que perdeu tanto tempo da sua vida se dedicando a isso, a essa dor, a essa cadeira dura, incômoda e desconfortável. Culpa a pessoa ou a situação por tê-la deixado presa, quando quem escolheu reviver aquela dor foi você. E aí, essa coitada, pobre coitada, se torna a amargurada.
Sua narrativa é sua, sua história é sua. Não deixe que sua dor tome a caneta e te escreva como uma coitada. A coitada, essa pobre coitada, não decide, não se posiciona, não se responsabiliza. Ela deixa na mão do outro algo poderoso demais: a escrita da própria jornada. E, citando novamente a publicação do Instagram, você já é grande demais para ficar pequena.
Limpa essa bagunça, lava o rosto, amarre o cabelo, abra as janelas. Levante dessa cadeira desconfortável, incômoda e imunda, e tome as rédeas da sua vida. Sua dor não te fez mais forte, quem te faz forte é você quando decide existir para além dela. Quando decide, todos os dias, que essa dor não te molda, não te define e não é a sua narrativa. Quem te faz mais forte é você quando decide que essa dor é sua, mas que ela não é você.





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