#meus20anos — Duas décadas de aprendizado;



A tão conhecida música parabéns pra você era cantada pelos seus convidados e ela tinha um sorriso tímido no rosto enquanto batia palmas suaves e tinha os olhos fixados nas vinte velinhas sobre o bolo em formato de Cupcake gigante. Sua atenção era dedicada ao fogo brilhante que seria apagado em breve, não só pela vergonha que era claramente notada pelo rubro em suas bochechas, mas também porque o momento parecia ser longo o suficiente para fazê-la refletir em tudo que já passara por todos aqueles anos.
Aprendeu que decisões, por mais simples que fossem, quando tomadas da maneira certa, mudavam todo o rumo de uma vida. Aprendeu que não deveria deixar os outros ditarem como viver, pois as consequências dos seus atos não repousariam sobre os outros, mas sim sobre ela mesma. Aprendeu que um sonho, por mais pequeno e medíocre que seja, ainda é sonho. E que colocá-lo em prática sempre será uma dádiva, aquela sensação de realização, as expectativas sendo superadas, o gosto de ter um item da lista riscado.         
Aprendeu, da maneira mais difícil, como as atitudes alheias, algumas vezes, refletem diretamente em si e que mesmo não tendo nada a ver com o ocorrido, as pessoas ainda a julgarão. Aprendeu que apesar de dizer "Isso não é engraçado" com lágrimas nos olhos, os outros continuarão rindo, sem se importar se aquilo, de fato, magoará o seu coração ou se deixará marcas por tempo indeterminado. Aprendeu que basta uma pessoa para quebrar sua confiança, mas que precisará de muitas para reconstruí-la.
 Aprendeu que dançar apenas por dançar, para se divertir, não mudará em nada seu relacionamento com seu Deus e que Ele não a amará menos por isso.  Aprendeu que amor vai muito mais além do que estar presente de forma física; que o amor pode ser dado e recebido a quilômetros de distância, com tanta pureza quanto as demais formas. Aprendeu que escrever não é simplesmente escrever; é amar cada personagem inventado, traçar seus futuros, tê-los como filhos, amigos, irmãos. Aprendeu que amadurecer e crescer são coisas completamente diferentes e que, muitas vezes, precisa ser como uma criança em determinadas situações.
Aprende, todos os dias, a ter paciência e lidar melhor com pessoas e situações. Aprende a desconstruir preconceitos e mudar sua visão de mundo, visando um melhor relacionamento com os outros. Aprendeu que nada de ruim que lhes aconteceu fora culpa de Deus; que Ele, acima de tudo, fora um dos mais tristes com os ocorridos; Aprendeu que a fé pode ter sim um  fim; mas que Deus estará disposto a trazê-la de volta, todos os dias. Aprendeu a se amar. Aprende, todos os dias, como amar os outros sem julgamentos, ciúmes, cobranças; amar apenas por amar. Aprende, todos os dias, que enquanto não amar a Deus sobre todas as coisas, não amará ninguém da maneira certa.
E agora, diante das vinte velinhas ao invés de um desejo, ela traz em seu coração um agradecimento. Agradece Àquele que lhe dera a vida e os melhores momentos vividos nesta. Pede que Ele lhes dê mais 20, mais 40, mais 80, o quanto Ele desejar. Pede mais lutas, porque sem elas, a vida não teria a mínima a graça.

No mais, parabéns pra ela.
Ou melhor, pra mim. 




#meus20anos — Erros dos outros, minhas consequências;



A rinite havia lhe consumido o dia inteiro. Como se já não bastasse toda a irritação com os problemas que já tinha em casa, somados aos da faculdade e mais essa: o nariz escorrendo, dor de cabeça, os olhos ardendo e  espirros constantes. Se tinha uma coisa que ela detestava com todas as forças era sua alergia, que tinha o dom de acabar com quaisquer que fossem os planos, deixando-a com raciocínio lento e corpo mole, além de atrair olhares de nojo das pessoas ao seu redor que imaginavam ser algo contagioso. Mas naquele dia, sua irritação era por uma outra coisa. Uma situação muito mais preocupante que um nariz escorrendo. Naquele dia ela esgotou todos os seus argumentos... para nada. Há muito que já sabia que aquilo aconteceria, mas sequer imaginou que seria tão rápido. Traçou planos para fazer convencer do contrário, mas, ao que parecia, não havia mais tempo. Naquele dia ela pediu, implorou, chorou e se humilhou, mas foi em vão.

Alguém iria embora. E ela sabia que não era por alguns poucos meses, como lhe fora dito.
Alguém iria embora e ela não podia fazer nada pra impedir.

Os olhos vermelhos demonstraram um misto de sentimentos que envolviam a menina, mas nenhuma lágrima saíra deles ou ameaçou cair. Ela se recusava a chorar. Já havia chorado tudo que precisava antes e agora, tudo o que ela menos precisava era se mostrar fraca. Se mostrar ainda mais fraca e vulnerável àquela situação que de longe era a pior de sua vida. Nunca imaginou que passaria por aquilo, muito menos pensou que poderia doer tanto. Muitos dizem que situações na infância marcam e são completamente difíceis de se esquecer. Naquele momento ela pensou se aquilo tivesse ocorrido quando ela era criança, se não teria sido mais fácil. Nem mesmo saberia do que se tratava, talvez a situação toda lhes passasse despercebida. Talvez fosse melhor do que agora, com 18 anos e de mãos atadas. Completamente inútil.

Deitou-se e fitou o teto, fungando. Apertou os olhos e colocou os fones, deixando que a música alta lhe adentrasse os ouvidos e a fizesse esquecer por alguns segundos o que acontecia. A dor no peito, que lhe incomodava desde o final da tarde, pareceu mais forte. Ela ignorou. Fungou de novo, tentando respirar fundo e não obteve sucesso. Tentou de novo e falhou. Os olhos se abriram e, arregalados, fitaram o teto, incrédulos que depois de tantos anos, a vida lhe trouxera mais uma visita indesejada.
A asma.
A mão tocou o peito e o chiado característico da doença saiu de seus lábios, fino e baixo. Tinha tanto tempo desde a última crise que nem mesmo sabia como agir. Sentou-se, juntou os travesseiros e se deitou novamente, deixando parte do tronco erguida e facilitando a respiração. E não adiantou. Foi então que puxou o ar pelo nariz e mais uma surpresa desagradável apareceu: a rinite o congestionou a ponto de nenhum ar passar pelas vias nasais.
Só podia ser brincadeira.
Os segundos que se seguiram pareceram longos demais a medida que se tornava cada vez mais difícil manter-se com a falta de ar. Sufocada, o quarto parecia menor e era como se todos os seus pertences estivessem em cima dela e a impedissem de receber o tão precioso ar. As mãos foram quase em automático ao tecido da blusa usada, puxando para baixo com força, como se a peça de roupa fosse a principal causadora daquele problema.
         A visão ficou escura e ela pensou seriamente que desmaiaria. As mãos saíram do peito e começaram a tatear o colchão, a procura de qualquer coisa que pudesse ajudá-la, até que encontrou: escondido entre o lençol e o colchão estava o desentupidor nasal líquido. Cega, a garota pegou o potinho  e o destampou com rapidez, guiando-o as narinas e o apertando com força, fazendo cair mais do que o necessário nas vias nasais. Não se preocupou em tampá-lo de volta,  concentrando-se ao máximo para se manter acordada. Os olhos fixos no teto, a mão livre apertou o lençol da cama, enquanto a outra ainda tinha o recipiente nas mãos, segurando-o como se sua vida dependesse dele – e dependia.  Após intermináveis dez segundos, ela fungou na esperança do remédio ter tido efeito.
E teve.
O ar adentrou seus pulmões pelas vias nasais e ela nunca sentira tanto alívio na vida como naquele momento. A mão soltou o lençol, os olhos se fecharam, a cabeça pendeu para o lado e ela se permitiu respirar mais tranquila, mesmo que ainda lhe fosse difícil diante da crise asmática. A visão, mesmo que ainda escura, fitava a parede e os lábios moviam-se rapidamente em agradecimentos baixos aos céus.
Era a primeira vez que uma decisão de alguém refletia diretamente nela. Primeiro, a sua saúde. Depois, a sua paciência. Logo em seguida viriam a falta de crença nos outros, a frieza, o medo de confiar mais uma vez. Afazeres que ela não queria, uma casa inteira sob suas costas, comentários alheios que ela não precisava, um preconceito estúpido que seria jogado sobre si por algo que ela não havia feito.
Eram erros dos outros que, após a primeira vez, não parariam de refletir nela. Teria que a aprender a conviver com aquilo se quisesse viver em paz.
Paz. Era até engraçado usar tal palavra para a situação.

  
A pior dor do mundo é 
obrigar a cabeça a esquecer aquilo 
que o coração lembra a todo instante;

#meus20anos — Uma jornalista em formação;



Descera do ônibus e os olhos brilharam atrás das lentes dos óculos ao observarem o grande Campi a sua frente. O seu novo destino a partir de agora, onde passaria três horas e meia do dia, cinco dias por semana. Ela não poderia estar mais feliz. As duas horas e alguns minutos de viagem para chegar lá eram insignificantes se analisassem o quanto ela queria aquilo. O horário nas mãos, os olhos curiosos observando cada detalhe do espaço, os passos lentos para fazer daquele momento cada vez mais único. Ainda parecia muito surreal que parte do seu sonho estava de fato acontecendo.
Ela era, finalmente, uma caloura de jornalismo.
Lembrava como a vontade de seguir aquela carreira já lhe era presente, mesmo quando nem pensava sobre seu futuro. Tinha nove anos, brincava de boneca com a melhor amiga de olhos azuis, quando as duas discutiam quem seria o quê. Ela pegou sua barbie e arrumou os cabelos, colocando-a sentada à uma mesa.
“A minha vai ser modista” disse, procurando os móveis em miniatura apropriados para fazer o trabalho da sua boneca.
“O que é uma modista?” Perguntou a outra, fixando os olhos azuis no rosto da morena e pendendo a cabeça para o lado, curiosa.
“É uma jornalista de moda, entendeu? Por isso é modista.” Explicou como se a pergunta fosse óbvia e voltou a arrumar o escritório de sua modista.
Durante toda a semana ela recortava e colava folhas de caderno transformando-as em pequenas revistas e colocava adesivos na capa, arrumando suas edições. Fazia murais de pauta – que ela nem mesmo imaginava o que significava –, pegava caixas de fósforos e fazia câmeras fotográficas. Aos 12 anos, ela e o primo resolveram montar um periódico mensal em que só eles teriam acesso. A “Leia lendo” foi um sucesso tendo maravilhosas e bombásticas duas edições.  No primeiro ano do Ensino Médio, por conta do vestibular, textos dissertativos-argumentativos começaram a ser trabalhados em sala e, enquanto todos os colegas detestavam escrever, ela vivia um misto de interesse e preguiça. Quando o tema proposto pela professora lhe agradava, precisava fazer de tudo para não ultrapassar o limite máximo de linhas. Quando não, era um tremendo esforço chegar ao mínimo de vinte.
No ano seguinte, um trabalho de inglês, onde os alunos deveriam produzir videoclips, surgiu. A turma deveria selecionar um responsável para os bastidores e postá-los no blog do trabalho. Na divisão, o blog fora a única função que lhes restou e ela acatou, decidindo que se dedicaria ao máximo à ele. Fora seu primeiro prêmio como “melhor blogueira” (e como qualquer outra coisa) e o único que a turma levou. Em 2011, seu último ano na escola, o trabalho se repetiu e o blog ficara novamente em suas mãos. Antes mesmo de começar as suas postagens, já era conhecida pelo trabalho anterior e alguns diziam que nem se empenhariam, pois o prêmio seria dela. E foi. O professor de Inglês e seu grande amigo, lhe entregara ambos os prêmios com sorriso no rosto e brilho nos olhos. Dissera à garota que se ela não escolhesse jornalismo, ele a obrigaria a escolher. E ela escolheu. Desde a primeira vez que escrevera, sabia que era aquilo que queria para sua vida.
No mesmo ano, ela conheceu o mundo das fanfics. Por meio da música pop coreana, chegou ao site “Lollipopfics” e mais uma vez, encontrou-se. Leu todas as fanfics finalizadas em menos de um mês e decidiu que ela também seria uma autora. Com uma ideia inicial deixando a desejar, afinal era a primeira fanfiction, ela escreveu e com permissão das administradoras do site, publicou. O interesse por escrever só aumentou. Novos sites de fanfictions, sendo de artistas asiáticos ou não, foram encontrados, novas histórias lidas, novas ideias para escrever as próprias. Ao fim daquele ano de 2011, beirando o vestibular a garota tinha ainda mais certeza do que deveria escolher para a faculdade: Jornalismo. Ela queria escrever. Queria fazer as pessoas refletirem através do seu texto, queria um livro publicado no futuro. Decidira então que o blog pessoal, criado em 2008 apenas porque sua irmã mais velha também tinha, seria levado a sério.
Com o início de 2012 viera a triste notícia de que ainda não estava apta para cursar a tão desejosa faculdade. Após dias de desânimo, voltara a ativa e iniciara o cursinho com um gás que nem ela mesma imaginou que tinha. Novas histórias sugiram, ela viu sua escrita evoluir, passou a explorar novos temas, resolveu ler mais livros e mais fictions. E nos primeiros dias de 2013 ela recebera a notícia que tanto queria:
Ela seria, finalmente, uma caloura de jornalismo.

E desde quatro de fevereiro de 2013, quando ela finalmente colocara os pés lentos e os olhos curiosos dentro do Campi, o seu sonho vem sendo realizado todos os dias. Entrara com uma visão e a cada aula a mesma vem sendo quebrada, podendo rever seus conceitos sobre o curso e o mundo. Percebe que ser formador de opinião vai muito além de simplesmente levar a notícia as massas, é também dar voz a nação. Tem, todos os dias, seus pré-conceitos descontruídos e uma visão mais ampla da vida, do homem, do mundo. Precisa, todos os dias, deixar sua timidez de lado e não só escrever, mas falar e expressar. Falar para um ou para muitos. Falar para uma câmera ou para um gravador. Escuta, vez ou outra de algum professor que “Será uma grande jornalista de revista”; “Você tem potencial para qualquer área de escrita que você seguir” ; “Te aguardo no jornalismo literário”. Ouve, de um professor em particular que ela tanto adora, que ainda espera um livro dela publicado. Ouve um  “E o blog, como é que tá?” e automaticamente um sorriso adorna seus lábios.

 Percebe, todos os dias, que não havia nenhuma outra graduação no mundo para ela, se esta não fosse a Comunicação Social. 

"Você é um grande escritor.
Não um aspirante, um escritor medíocre ou algum dia,
de alguma forma, um escritor.
Você é um grande escritor, agora."
StoryWonk.com